Gravadora: EMI/Odeon
Data de Lançamento: Segundo semestre de 1980
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Um ex-carcereiro e um ex-advogado se encontraram. Não, eles não queriam discutir a situação de presidiário algum. Apresentados por Delcio de Carvalho (parceiro de Dona Ivone Lara), Wilson Moreira e Nei Lopes já eram experientes músicos do Rio de Janeiro que, de comum, tinham o interesse pelo samba e pelas origens da cultura africana.
Wilson vinha de uma família que praticava o jongo, cujos precedentes ajudaram a criar o samba. Quanto a Nei, aprofundou-se nas pesquisas sobre a música e cultura negras a partir dos anos 1970, à medida que seu desinteresse pelo Direito aumentava.
Foi nesse tempo que os sambistas se conheceram, formando uma parceria frutífera que renderiam composições que, nas vozes de Clara Nunes, Alcione e Beth Carvalho, se tornariam célebres: é o caso de “Senhora da Liberdade”, “Gostoso Veneno”, “Coisas da Antiga”.
Mais comprometido em selar a parceria que definir uma unidade ao disco, Wilson e Nei fizeram da abrangência a essência da arte negra que tanto celebravam
No repertório dessas intérpretes, essas canções se notabilizavam por suas construções poéticas intrincadas, escondidas por melodias que pareciam simples.
Os executivos da EMI tinham ciência da sofisticação daquelas músicas. Por isso mesmo, ficaram receosos se realmente deveriam gravar A Arte Negra de Wilson Moreira e Nei Lopes (1980). Além do mais, havia outro detalhe: Nei e Wilson eram da mesma turma de Candeia, o sambista que detratou a massificação e o estrangeirismo do samba.
Wilson e Nei eram defensores da valorização cultural do samba por diversos motivos, como a banalização do Carnaval pela televisão e a falta de interesse da mídia em dar voz à música negra brasileira. (Essa bandeira foi hasteada ao longo de décadas, tanto que após um show beneficente para ajudar Wilson em um tratamento de derrame, em 1997, que contou com diversos sambistas consagrados, ele disse, diante da boa repercussão: “Vencemos a mídia”.)
A Arte Negra de Wilson Moreira e Nei Lopes foi o primeiro de dois discos que registraram e eternizaram de vez essa parceria – o outro é O Partido Muito Alto de Wilson Moreira e Nei Lopes (1985). E ele veio num momento importante – quando a indústria musical se refestelava com o pop internacional, quando o bar Zicartola já era nostalgia e quando os temas das escolas de samba sofriam uma pecha criativa.
Sem esquecer que a Ditadura Militar comia solto – o que gerou uma discussão velada nos circuitos intelectuais sobre a inclusão de “Senhora Liberdade”, compilada como pout-pourri ao lado de “Gotas de Veneno”. A canção fala de um delito de amor como ‘violenta paixão’, usando o ‘sonho tão bonito’ como espécie de eufemismo de alguém que sofreu ‘terrivelmente’. Com o tempo, ficou conhecida como ‘canção de cadeia’ – algo que, por conta de seu teor, depois ganhou a alcunha de ‘hino da Anistia’.
É na onda dos pout-pourris que o álbum inicia: a sequência “Só Chora Quem Ama”, “Goiabada Cascão”, “Mel e Mamão com Açúcar” e “Coisa da Antiga” forma o compêndio de partidos-alto. Elas mostram a relação das composições de Wilson e Nei com a linguagem das ruas e dos morros. ‘Mamão com açúcar’, muitos sabem, é algo ironicamente tranquilo, coisa de malandro. Já ‘goiabada cascão, é coisa fina, que ninguém mais acha’ veio emprestado de um elogio que o jornalista Sérgio Cabral fez ao violonista Dino Sete Cordas, em 1975.
Wilson Moreira e Nei Lopes eram defensores da valorização cultural do samba por diversos motivos, como a banalização do Carnaval pela televisão e a falta de interesse da mídia em dar voz à música negra brasileira
Preparada (mas nunca gravada) para Djavan, “Coité, Cuia” foi uma das primeiras composições da dupla. Ela mostra a facilidade de conexão do samba com a música caipira, inserindo elementos do baião, do jongo e da música baiana. “Gostoso Veneno” encarava o prazer de forma voluptuosa, mesmo que estivesse vulnerável à dor. É uma das canções mais conhecidas da dupla.
“Noventa Anos de Abolição” foi composta para a escola G.R.A.N.S. Quilombo, de Candeia, e chegou a ser gravada por Clara Nunes, mas não saiu em CD. O influente mestre-sala, que foi assassinado em 1978, também recebeu outra homenagem. Mais melancólica, “Silêncio de Bamba” ganhou uma riqueza de arranjos com a interpolação de flauta, cuíca e percussões. Mas, bonita mesmo era a letra: ‘A batucada calava/Instrumentos em funeral/Enrolavam a bandeira do samba/Era silêncio de um bamba/Foi poeta e foi guerreiro/Foi um negro verdadeiro/Assentado, em seu trono de rei/Fez do samba sua lei’.
Esse lado samba-canção da dupla foi tão latente quanto os partidos-alto. Mais comprometido em selar a parceria que definir uma unidade ao disco, Wilson e Nei fizeram da abrangência a essência da arte negra que tanto celebravam. Se “Samba do Irajá” refletia um momento existencial em que Nei se sentia endividado com o pai, “Ao Povo em Forma de Arte”, escrita por Wilson, é um samba-enredo que pontifica a evolução da música negra a ‘nível cultural superior‘, como uma ciência que precisa ser moldada e apreciada por artesãos – eufemismo que cabe muito bem a Wilson Moreira e Nei Lopes.
