Gravadora: Blue Note
Data de Lançamento: 2º semestre de 1969

Quando ainda estava no começo de carreira, aos 29 anos, Branford Marsalis dizia que se sentia um ‘historiador’ tocando seu saxofone.

“Uma experiência que tive com Wayne realmente me convenceu”, disse ao jornalista Peter Watrous, do New York Times. “Ele fez um exercício no sax, tocando em cima de mudanças rítmicas, e me mostrou diversos estilos. Ele disse: ‘é assim que se toca Lester Young, assim que Charlie Parker tocava, como Warne Marsh faz, como Coltrane faz e – finalmente – como Wayne faz’”.

Marsalis acrescentou: “Isso me lembrou uma história de Picasso, que disse algo como ‘meu desejo é que todo o Louvre queime, assim eu poderia repintar todas as obras’”.

A permanência do primeiro nome, Wayne, é enfatizada por um motivo simples: a partir dos anos 1960, o saxofonista de New Jersey tornou-se referência por explorar escalas que davam mais espaçamento ao sax-tenor, em buscas mais harmônicas, tornando-se um ‘contraponto’ ao estilo de John Coltrane, que era mais arrebatador.

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Como Miles Davis impulsionou a carreira de Wayne Shorter

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Wayne Shorter realmente sabia como não se repetir, mas fazia isso de forma sutil. Ele explorava, gostava de divagar sobre as notas, e então surpreendia quando menos se esperava.

Sua carreira começou no final dos anos 1950, tocando com o Art Blakey & Jazz Messengers. Já sem John Coltrane em seu quinteto, Miles Davis convenceu Wayne a abandonar o grupo do baterista – algo que ele fez em 1964. Miles sabia de sua habilidade de compor, algo pouco aproveitado no circuito do hard-bop. Então, temas como “E.S.P.”, “Footprints” e “Nefertiti” ajudaram a moldar o que ficou conhecido como o Segundo Grande Quinteto do trompetista – ao lado de caras como Herbie Hancock (piano), Tony Williams (bateria) e Ron Carter (baixo).

Foi também no grupo de Miles que Wayne Shorter decidiu explorar outro instrumento. Em In a Silent Way (1969), conhecido como o primeiro disco de fato do fusion-jazz, Wayne surge em notas econômicas de um sax-soprano, instrumento que ele estava começando a explorar.

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Mas o grande teste mesmo deu-se no disco solo Super Nova. Gravado no mesmo ano que In a Silent Way, o álbum não teve nem de perto a repercussão do disco do trompetista, mas permitiu a Wayne arrebatar um estilo vulcânico de emaranhar as notas de seu ‘novo brinquedo’.

No disco, Shorter contou com o auxílio de alguns dos músicos de Miles: os guitarristas John McLaughlin e Sonny Sharrock, o tecladista Chick Corea, o baterista Jack DeJohnette e o percussionista brasileiro Airto Moreira. A sessão foi complementada por Miroslav Vitouš no baixo, Walter Booker nos violões e Niels Jakobsen nas claves.

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Percebe-se que a musicalidade do disco é solta, com mais inspiração que coesão em si. Não havia bem um caminho delimitado, mas uma energia coletiva múltipla

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Uma das grandes inspirações para Super Nova foi a morte do arranjador Billy Strayhorn, em 1967. Tido como um dos grandes propulsores da música de Duke Ellington, ganhou homenagem em “Sweet Pea”, lamento puxado pelo som agudo do sax-soprano com a cozinha estética de teclados, kalimba e contrabaixo, criando um ambiente que parece adornado de nuvens e anjos num clima etéreo.

Outra influência muito forte em Wayne era a música brasileira. Naquela época ele namorava a portuguesa Ana Maria Patricio, com quem se casaria no ano seguinte. Por intermédio dela, conheceu Milton Nascimento, com quem gravaria posteriormente. Além do mais, o amigo Airto Moreira já havia lhe apresentado algumas coisas.

No período de gravação de Super Nova, porém, ele havia se encantado com uma melodia bonita entoada por Flora Purim, esposa de Airto e também cantora brasileira muito conhecida nos Estados Unidos. Tratava-se de “Dindi”, de Tom Jobim.

Para registrá-la, ele convidou a futura cunhada, Maria Booker, que apesar de não ser cantora profissional, já conhecia bem a canção.

Ela era casada com Walter, mas estava num momento bastante turbulento com ele.

Para a sessão, Maria e Walter estavam sozinhos no estúdio. “Descobriu-se que ela e Walter estavam terminando, então esse dueto tenro e intimista foi bastante emocional para Maria”, conta a biógrafa Michelle Mercer em Footprints: The Life and Work of Wayne Shorter. “No final da apresentação, ela rompeu-se em soluços”.

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Wayne preservou o choro de Maria na música. “Disse a ela que queria manter essa vida nas gravações. E isso foi terapêutico pra ela também. Quando ela terminou de gravar, pediu o divórcio”, contou o jazzista. Depois, ela se casou com o cantor Jon Lucien, que ajudou a popularizar “Dindi”.

A forma com que Wayne conclui “Dindi” – num arroubo carnavalesco, com um funk arrojado e solos estrepitosos no sax-soprano – é uma espécie de teaser do que Miles buscaria somente depois, em On the Corner (1972). (Wayne não participou desse disco; DeJohnette, Airto e Corea, sim.)

Além de tocar com o trompetista, todos os músicos que ajudaram a formatar a ‘fase elétrica’ de Miles moravam bem próximos. Alguns deles se reuniam no apartamento de Maria, “repletos de música, comida caseira, vinho e cocaína”, segundo Mercer.

Esse clima também foi preponderante para as gravações de Super Nova. Não havia bem um caminho delimitado, mas uma energia coletiva múltipla.

Percebe-se que a musicalidade do disco é solta, com mais inspiração que coesão em si – se por um lado havia reflexão em “Sweet Pea” e “Dindi”, sobrava desenvoltura técnica nas arrebatadoras “Capricorn”, a faixa-título e “Water Babies”, que deu nome a um disco de Miles, de 1974.

Super Nova me trouxe várias informações”, relembrou Wayne na biografia. “Enquanto tocava, pensei: ‘O que está acontecendo aqui? Só espero que esses caras continuem tocando e me sigam… Bom… Eu vou me lembrar disso, continuem quando o público estiver preparado’”.

Mesmo sem saber, começava, ali, uma nova era – era em que o sax-soprano de Wayne Shorter se tornaria um dos guias principais para o som eletrificado que dominaria o jazz dali em diante. “Várias composições desse período de Shorter se tornaram pilares do desenvolvimento do fusion, ou jazz-rock”, analisou o crítico Robert Palmer.

Quando o público percebeu o potencial destes últimos discos do saxofonista na Blue Note, ele já havia formado o Weather Report, em 1970, ao lado do tecladista Joe Zawinul. Se como líder ele era pouco retratado, com uma banda aconteceu o inverso: Wayne Shorter ficou reconhecido como o principal artífice do fusion. Aí, o bicho pegou!