Gravadora: Island
Data de Lançamento: 1º de agosto de 1985
Tom Waits não é o tipo de artista que vai te agradar em uma primeira audição. Há diferentes tipos de reações, até que você insista um pouco mais e comece a se identificar com sua voz gutural ou o aspecto teatrólogo de um bêbado confessional que exibe habilidades invejáveis tanto para compor baladas como para compor músicas mais dançantes – por mais estranhas que as danças possam ser.
Meu primeiro contato com a obra de Waits foi com o disco Rain Dogs, depois de ouvir separadamente alguns singles de Bone Machine ou Mule Variations. Este disco tem um conceito: é o segundo de uma trilogia que fala sobre as perdições de uma Nova York cada vez mais urbanizada. (Os outros discos que completam este conceito são Swordfishtrombones (1983) e Franks Wild Years (1987)).
Em 19 faixas, Waits vai do blues ao flamenco, não sem antes causar furor nos ouvintes com uma turma pesada de free-jazz – que inclui Bob Funk no trombone e Ralph Carney no sax barítono – na instrumental “Midtown” ou na exasperante introdução de “Singapore”, falando sobre diferentes obscuridades enquanto diz se encontrar com diversos imigrantes na cidade.
Até o tango se mostra um campo passível de experimentações para Waits em “Tango Till They’re Sore”: sua voz meio country-blues ganha ares de música de prostíbulo com o trombone tácito de Bob Funk. “Jockey Full of Bourbon” é temperado pelas percussões de Michael Blair, ao passo que Waits versa sobre as intempéries da noite aconselhando o ‘pássaro’ a voltar pra casa para cuidar da família.
Também há espaço para a linda balada “Hang Down Your Head”, talvez uma das músicas mais conhecidas do músico, que fala sobre orgulho amoroso (foi escrita em parceria com sua esposa Kathleen Brennan). Na sequência, “Time” mostra um Waits mais confessional do que nunca, mostrando que é uma pessoa de sentimentos mesmo diante de suas fuzarcas sonoras.
A faixa-título é levada por um solo de acordeão até que retorna novamente ao submundo com a marimba de Blair e os trombones e guitarras esvoaçantes. Durante as guitarras de todo o disco, por sinal, os melhores ritmos são explorados por Marc Ribot. (Por mais que Keith Richards, que toca em faixas como “Big Black Mariah”, “Union Square” e participa nos backing vocals de “Blind Love”, marque as linhas cruciais para reforçar as diferentes formas vocais de Waits, Ribot se mostra mais lisonjeiro com a guitarra, por dialogar melhor ritmos como polka e free-jazz.)
Como fã de Waits, sugiro que, se ainda não conhece a obra do músico, ouça este disco pelo menos três vezes. Se não gostar, tudo bem. Pelo menos terá o crédito de falar que tentou, por mais que eu ache impossível você não cair no gosto.
