01 The Shutout 02 Fat Mama Kick 03 Nite Flights 04 The Electrician 05 Death of Romance 06 Den Haague 07 Rhythms of Vision 08 Disciples of Death 09 Fury and the Fire

10 Child of Flames

Gravadora: GTO
Data de Lançamento: Julho de 1978

Formada em 1964 em Los Angeles, o The Walker Brothers obteve uma trajetória contrária a dos Beatles e Rolling Stones. Enquanto os britânicos estouravam naquele momento nos Estados Unidos, o trio formado por Scott Walker, John Walker e Gary Walker (que não são irmãos) lançou músicas pop de relativo sucesso no seu país de origem, como “The Sun Ain’t Gonna Shine Anymore” e “Make It Easy On Yourself”, mas que tiveram maior impacto na Europa.

Nos anos 1960, a banda lançou cinco álbuns, selecionados de forma diferente para vendagem na Europa e nos Estados Unidos. Enquanto eles estrearam em terreno europeu com Take It Easy with The Walking Brothers (1965), o primeiro álbum a ser lançado nos EUA foi Introducing the Walker Brothers (1965), com tracklists quase parecidos. Após o lançamento de Images (1967), que trouxe boas canções como “Orpheus” e “I Can’t Let It Happen to You”, a banda passou a ser chamada de datada, muito por conta de não ter associado a psicodelia e os arranjos mais densos de guitarra, que naquele momento caracterizavam a música jovem.

Após uma turnê ao lado de nomes como Jimi Hendrix e Cat Stevens, em 1968, eles anunciaram uma pausa. Todos os membros partiram em trajetórias solo; a mais impactante foi a de Scott Walker, que trilhou seus primeiros passos para se tornar um mestre inigualável do avant-garde. Seu interesse pelas composições de Jacques Brel e arranjos mais sofisticados deram uma nova direção a sua música, que adquiriu ares mais híbridos e estranhos com o passar do tempo – até os dias de hoje.

Com menor expressividade, John e Gary também trilharam caminhos próprios mas, assim como Scott, foram se apagando com o passar dos anos. Na tentativa de sobreviverem ao mercado, lançaram algumas faixas cover, premissa que pautou o retorno dos Walker Brothers em 1975 com o fraco No Regrets e uma tentativa de melhorar com Lines (1976), que trouxe respeitosa versão de “Many Rivers to Cross” (Jimmy Cliff). Vale lembrar que, de tão zicados, não conseguiram emplacar com a versão de “We’re All Alone”, de Boz Scaggs, que estourou no ano seguinte na voz de Rita Coolidge.

Eles precisavam se renovar, mas a trajetória optada por cada integrante os distanciou de forma irreparável. Prova disso é o disco em questão, Nite Flights, que apontou grande mudança logo em sua capa: Scott Walker semiofuscado pela luz, em primeiro plano, visto como se o espectador estivesse em movimento, com os demais integrantes relativamente distanciados.

É Scott mesmo que dá o start: ele fez as pazes com o lápis e volta a escrever – desta vez, influenciado de certa forma pelo pós-punk na abertura “Shutout”, que aos poucos revela grande intensidade no baixo, até que o solo de guitarra de Les Davidson chega atropelando furiosamente. “Fat Mama Kick” tem um pé na eletrônica alemã; é futurística e tal, mas é o contraponto da voz barítona de Scott que lhe garante certo teor iconoclasta. O solo no sax tenor de Alan Skidmore é tão instigante como a vontade da banda de nos impressionar.

A faixa-título retoma a fase interrompida de Scott Walker em Scott 4 (1969). Está condensado em uma atmosfera gótica, talvez um fragmento embrionário do Joy Division.

É da safra de composições de Scott o grande presente de Nite Flights: a portentosa “The Electrician”, dark até o caroço, um eclipse pendular que pode ser entendido como o ponto de partida para o que o improvável músico faria nas próximas décadas. Sob uma orquestra fúnebre, resquícios de ambient perpendiculares, talvez trilha de um cemitério, somos relegados ao medo. A música fala de um torturador relembrando os momentos com sua vítima revestido da frieza que se espera de um indivíduo desses. Ao entoar o refrão, o barítono de Scott faz a vez do torturado, como se o criminoso sofresse de alguma forma com isso. A partir daí, o arranjo orquestral de Dave McRae (que produziu Nite Flights junto com Scott) atiça a imaginação do ouvinte.

Tilt (1995) e os demais discos que formam sua tríade ‘difícil’ (The Drift, de 2006, e Bish Bosch, de 2012) jamais seriam concebidos sem a criação de “The Electrician”. A partir daí, temos uma vaga ideia do lugar que a música de Scott Walker seguiria nos anos seguintes.

Ainda no lado A do vinil, o disco toma outra direção com “Death of the Romance”, composição de Gary Walker que se sustenta mais pelo sax soprano de Ronnie Ross que pelo pop batido do cantor. “Den Haague” já é mais folk, mas nada muito diferente do que Gary ofereceu na trajetória solo.

A partir de “Rhythms of Vision” o disco adquire um ar mais pop. Isso porque John Walker é o autor das quatro faixas finais de Nite Flights. Os teclados são o grande appeal e, em “Disciples of Death”, adquirem um ar funky que causaria algum movimento ameno nas pistas. “Fury and Fire” e “Child of Flames” cumprem o papel de levantar o ouvinte com seus compassos new-wave.

Reparando bem, Nite Flights é como se fosse uma junção de EPs dos três integrantes. Talvez a maior contribuição esteja nas quatro primeiras faixas, todas de Scott Walker. Mas não se pode negar o tom certeiro dos arranjos de McRae, porque todas as canções têm algo de interessante a oferecer.

Por ser o último disco, o trio deixou fluir a inspiração de cada um, para acabar de vez com a obrigatoriedade do contrato com a GTO Records, que previa três discos. A distinção artística de Scott, John e Gary é tão grande, que até hoje Nite Flights carrega o peso de ser ‘incoerente’. E, como um bom entendedor de música deve saber, a incoerência não é impeditivo algum para um bom disco.

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Dica: o álbum Nite Flights recentemente ganhou nova edição de vinil, depois de ficar por décadas fora de catálogo. Mais detalhes aqui.