
01 She Is Beyond Good and Evil02 Thief of Fire03 Snowgirl04 Blood Money05 We Are Time06 Savage Sea07 Words Disobey Me08 Don’t Call Me Pain09 The Boys From Brazil10 Don’t Sell Your Dreams
11 3’38
Gravadora: Radar
Data de Lançamento: 20 de abril de 1979
Uma das principais premissas do punk-rock era a agressividade de seu discurso político. Quando se fala da cena europeia, poucos foram tão radicais nesse sentido quanto os Sex Pistols.
Anárquicos, eles desafiavam a Rainha e, provavelmente, cuspiriam se estivessem diante dela.
Mas, nem mesmo Johnny Rotten e Sid Vicious eram tão vorazes quanto os conterrâneos do The Pop Group. Se Mark Stewart e companhia estivessem diante da monarca britânica, não cuspiriam: certamente arrematariam com uma machadada violenta; dariam o golpe certeiro para ceifá-la.
Mais que politizados, o The Pop Group era beligerante. Sua força de combate já foi mostrada logo no primeiro disco, Y (1979).
Nesse ano, o punk estava em plenitude, principalmente porque flertava com outros gêneros exibindo irradiante desenvoltura.
Formado em 1977, em Bristol, o The Pop Group dilapidou antes e até de forma mais pungente o que a crítica posteriormente só enxergaria em London Calling, do The Clash, que só seria lançado no fim de 1979.
A produção de Y ficou por conta de Dennis Bovell, o grande guitarrista da banda britânica de reggae Matumbi.
Claro que o reggae entraria em conta nos desconcertantes experimentos feitos por Stewart e companhia. O andamento de “She is Beyond Good and Evil” é típico de uma banda que sabe das vantagens sônicas do dub (a faixa integra apenas o CD; não foi lançado na versão original por ter ganhado uma edição em vinil 7” como single alguns meses antes).
“Words Disobey Me” faz da influência jamaicana uma ponte para dinamizar as guitarras de Gareth Sager e John Waddington, que tergiversam e se opõem como se estivessem distanciadas. Uma querendo fugir da outra, como polícia e ladrão.
A música jamaicana, no entanto, é só mais uma das muitas vertentes musicais exploradas em Y. “Thief of Fire” galga o funk, numa espécie de mistura de Gaz com Parliament.
A grande onda de “Snowgirl”, uma das mais impressionantes do disco no quesito musicalidade, é o free-jazz. Piano em convergência com baixo e guitarra numa jam pra lá de fuzz. Elas atingem a violência numa letra de caráter grotescamente subliminar: ‘Garota de neve/Irei te queimar!’.
“Blood Money” emula o noise que se tornou característico da no-wave, que começava a florescer em Nova York. Flamejante como o Mars – e mal produzido como qualquer faixa avulsa do DNA ou Teenage Jesus and the Jerks – percebemos a fúria de Stewart adentrar uma esfera sobrenatural, irradiando fúria e desavença, para confundir mesmo os mais próximos daquilo que era designado como punk.
E não pense que é só isso. Uma das faixas mais estranhas de Y, “The Boys From Brazil” tem uma aura espiritual, como descreveu Mark Stewart em entrevista exclusiva ao Na Mira:
“Minha avó era vidente, estava sempre conversando com os espíritos. De vez em quando pegávamos um livro aleatoriamente e, da mesma forma, escolhíamos diversas palavras, jogava no chão e fazia um cut-up, uma edição e, de repente, chegávamos a alguma coisa, algo profundo, somente com a seleção dos dedos das pessoas. Era um procedimento totalmente aleatório. Então, quebramos a melodia e chegamos à música”.
Free-jazz seria pouco para encaixar “The Boys From Brazil”. A música é dotada de uma essência anárquica, transfigurada até o osso.
Um disco tão variado em suas investidas estéticas obviamente ganharia reconhecimento da mídia especializada. Naquele momento, tornou-se uma das bandas favoritas do radialista John Peel e eternizou-se como referência para o que se diria música combativa.
Em Y, no entanto, a proposta era mais abstrata, como se pairasse na mente de cada um dos integrantes.
Logo no disco seguinte, For How Much Longer Do We Tolerate Mass Murder?, de 1980, a mensagem seria mais direta e dolorosa ao sistema. Com o single “We Are All Prostitutes”, então, estava completo o arsenal que serviria de faísca para grupos posteriores como Nine Inch Nails, PJ Harvey e Rage Against the Machine.
Alguns podem não ter conhecimento, mas o grito do The Pop Group jamais seria silenciado.
