01 Intro 02 Things Done Changed 03 Gimme The Loot 04 Machine Gun Funk 05 Warning 06 Ready To Die 07 One More Chance 08 Fuck Me (Interlude) 09 What (ft. Method Man) 10 Juicy 11 Everyday Struggle 12 Me & My Bitch 13 Big Poppa 14 Respect 15 Friend Of Mine 16 Unbelieveable

17 Suicidal Thoughts

Gravadora: Bad Boy Records
Data de Lançamento: 13 de setembro de 1994

Sim, na Costa Leste dos Estados Unidos havia rap do bom.

Ainda que tivesse um número menor de lançamentos expressivos do que a Costa Oeste – que a partir de Born To Mack (1987) emplacou uma sucessão das boas, como Straight Outta Compton (1988) e The Chronic (1992) – o outro lado dos Estados Unidos se destacava por suas produções alternativas e muito bem entrelaçadas. Um baita exemplo: The Low End Theory (1991), do A Tribe Called Quest.

Mas o disco mais expressivo dali viria somente em 1994. E não pense que Ready To Die foi um parto fácil.

Primeiro ele foi gravado em 1993 na cidade de Nova York, quando o produtor Diddy fazia parte do casting da D&D Studios.

A demissão do hoje milionário produtor deixou The Notorious B.I.G. um tanto desconcertado. Para juntar o montante necessário para concluir o disco, Biggie começou a vender drogas nas ruas.

Pouco tempo depois, Diddy montou a Bad Boy Records, o que possibilitou a conclusão da melhor estreia de hip hop de todos os tempos.

Esse tempo entre o início e a conclusão das gravações foi crucial: deu a Notorious B.I.G. mais experiência e mais histórias em um disco que se sobressai por ser autobiográfico.

A história, por conseguinte, não surpreende pelo enredo em si. Surpreende mais pela riqueza de detalhes e pela forma com que B.I.G. envolve o ouvinte. Em “Things Done Changed” ele subverte todas as propostas de mudanças feitas por Bob Dylan e Marvin Gaye. Sim, tudo mudou – mas não para o incerto ou para algo otimista. Mudou para pior, muito pior. ‘De volta àqueles dias, nossos pais costumavam cuidar da gente/Veja agora: eles têm a porra de medo da gente’.

“Gimme the Loot” é aquela música perfeita para ouvir no volume máximo dentro do carro. Carregada de agressividade, a faixa sampleia James Brown e Ice Cube e mostra Biggie rememorando os duros momentos nas ruas, assaltando e confrontando com policiais. Não é por menos que a música termina em tiro.

“Machine Gun Funk” representa um ponto nevrálgico da bio de Biggie. Ali ele já fala de sair das ruas e admite que ‘tudo o que queria eram putas’. Em “Warning” já temos um rapper em fase de transformação (‘as coisas não são como parecem’, diz). Ele ainda está envolvido com a criminalidade e, como dá a entender o final da canção, não tem sossego.

Esse é o clima que permeia a faixa-título, onde o rapper já está de frente com a morte e não dá a mínima para ‘o mundo, minhas mães ou minha garota’. A base de “Walk On By”, de Isaac Hayes, alterna melancolia e agressividade. É como se ele estivesse apavorado por dentro e, para não se mostrar fraco perante o ouvinte, recorresse à ira – sentimento comum de quem não quer se mostrar desprotegido perante as circunstâncias do que possa vir.

“One More Chance” tem todos os atributos para ser odiada por quem luta pelos direitos das mulheres. Inconcebível nos dias de hoje, a música mostra um Biggie de volta à ativa estimulado pela intensidade da vida sexual.

“Fuck Me” é depravada mesmo, sem pudor de mostrar uma mulher gemendo durante a transa.

O lado ‘safadão’ de Biggie não o separa do lado ‘agressivo’. Ele não opta por garotas tradicionais: quer as que entendam o jogo, as que não têm receio de admitir que são fanáticas por sexo. Isso você entende bem em “Juicy” (que sampleia um clássico do disco-funk do Mtume) e “Me & My Bitch”, que merece ser escutada com atenção antes de ser previamente acusada de misógina: ‘Você foi a minha puta, a única que não iria me delatar/Me amou quando eu estava quebrado ou quando estava na imundície da riqueza/E eu admito, quando for a hora certa, o vinho certo/Eu vou te tratar direito, você fala mansinho e eu chego direito’.

Ainda que desfrute bem da vida e entregue alguns de seus melhores clássicos, faixas como “Respect” (com vocais abaladores de Diana King) e “Everyday Struggle” mostram Biggie como um rapaz comum que tem sonhos de luxúria, sim, mas que não cai com os muitos atropelos de uma vida carente de oportunidades.

“Suicidal Thoughts” é o prenúncio de um fim trágico, mas o que o conceito e inclusive a capa de Ready To Die revelam é que a vida dura de uma personalidade dura não apaga o brilhantismo que pode emergir dali.

Na última canção, ele diz estar ‘cansado de ver negros mentindo, de putas se prostituindo’. Ele se mata. ‘Estou cansado de falar’.

Talvez este seja um dos poucos equívocos de Ready To Die. Porque o discurso teve uma grande eficácia: por um lado, o disco é mencionado como um dos melhores de toda a década de 1990; por outro, como o produtor Theo Parrish mencionou, contribuiu para que a juventude negra de seu país se tornasse mais ‘nula’ e ‘destrutiva’.

Verdade que B.I.G. morreu de tiros. Mas a causa não foi suicida. Foi assassinato. Assassinato de um dos nomes mais promissores do rap em 40 anos de história do gênero.

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A seguir ouça Ready To Die, de Notorious B.I.G., na íntegra: