Gravadora: Verve/Polydor
Data de Lançamento: 16 de setembro de 1991

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Entre Brian Eno e Radiohead houve o Talk Talk, e por mais que seja relevante ponderar as conexões, há de se estabelecer um elo entre estes três atos: a superação às condições comerciais de suas respectivas obras.

No caso de Eno e da banda de Thom Yorke, a dinâmica permitiu aproximação e consagração do público. Com o Talk Talk, ainda que muitos reconheçam a importância de seus dois últimos discos – Spirit of Eden (1988) e Laughing Stock (1991) – a reação mercadológica pode não ter sido nociva, nem a causa para o fim do grupo, mas uma variável que não pode ficar de fora da equação.

Determinados os ritmos de bateria (por Lee Harris), o Talk Talk ficou por cerca de 7 meses registrando o material numa sala escura. Dezoito músicos participaram das sessões, contribuindo com composições livres

Antes de se tornar uma das bandas embrionárias do post-rock, o Talk Talk era um grupo de synthpop da era new-romantic, nos moldes de Duran Duran e Tears For Fears. O disco It’s My Life (1984) – cuja faixa-título teve bastante reprodução nas rádios na época e ganhou uma versão revival do No Doubt, em 2003 – conquistou relativo sucesso comercial, especialmente na Europa. O sucessor, The Colour of Spring (1986), mostrou mais autonomia na direção artística, inserindo mais instrumentos como guitarras, percussões, pianos e órgãos: foi o disco mais bem-sucedido em termos de vendas, atingindo 8º lugar no Reino Unido, 3º na Suíça e o topo das paradas na Holanda.

Com Spirit of Eden, porém, inicia-se a fase que muitos associaram ao pré-post-rock. Com mais calmaria e menos hits, o 4º disco do grupo foi estabelecido a partir de uma regra de improvisação. Tim Frise-Greene, produtor que também assume piano, órgão e teclados, disse que as composições surgiam improvisadas nos instrumentos para que, então, cerca de 10% do material fosse aproveitado. É este, também, o processo que define o posterior Laughing Stock. Determinados os ritmos de bateria (por Lee Harris), a banda ficou por cerca de sete meses registrando o material basicamente numa sala escura. Dezoito músicos participaram das sessões, contribuindo com composições livres num método meio George Russell – mas com resultados à lá J Dilla, em que o cut-off faz parte da busca pela qualidade sônica e, principalmente, o casamento rítmico com o que foi elaborado.

O principal intermediário nesse processo foi o produtor Phil Brown, que, de tanto trabalho artístico, teve que fazer terapia (assim como Harris). Brown era experiente: havia trabalhado com superstars como Led Zeppelin, Pink Floyd e Bob Marley, mas não se recorda de algo tão desafiador quanto Laughing Stock: “A canção “After The Flood” provavelmente foi meu melhor trabalho como engenheiro nos últimos 40 anos”.

A terceira faixa do disco, de fato, é edificante: guitarras e pianos formam entrelaces distintos que se misturam para favorecer – e interferir – nos vocais de Mark Hollis, que sutilmente se resigna à loucura dos outros: ‘Balance minha cabeça/Ponha minha cabeça no chão/Morto para respeitar/Respeitar para ser nascido’.

Paulatinamente, as guitarras assumem o tom noisy; ao lado do trompete flugel-horn cheio de efeitos de Henry Lowther, a canção adquire proporções elegíacas, como se estivesse adentrando um universo de fábulas invadido por inimigos torrenciais, que perduram em boa parte dos mais de seus mais de 9 minutos. Esse fator surpreendente deve ser creditado a Friese-Greene: “Laughing Stock é mais barulhento porque eu queria que soasse assim”, afirmou, em entrevista à PennyBlackMusic.

Mark Hollis, vocalista e principal compositor do Talk Talk

Laughing Stock inicia com “Myrrhman”, um folk minimalista que faz uso do silêncio como elemento importante: a quietude permite que a naturalidade justifique as poucas inserções metálicas e uma ou outra nota de viola. “Ascension Day” é um dos exemplos mais dinâmicos de onde essa construção sônica do Talk Talk pode chegar: os vocais de Hollis parecem um sax-tenor adornando a cozinha hard-bop montada pelo grupo. Está longe de ser uma canção pop, mas é uma porta de entradas plausível para entender o funcionamento da engrenagem do disco.

Mesmo que a conexão do Talk Talk com o jazz seja possível, Hollis não acreditava que a pura e simples improvisação fosse determinante ao compor. “90% do que você toca é lixo. Se você está improvisando e chega a 10% [de aproveitamento], o que é bom, então acho que você está indo muito bem”, explicou.

Observando como um todo, Laughing Stock atrai justamente pelo preenchimento dos espaços musicais. Diante de um arsenal de instrumentos, Phil Brown e Hollis escolheram o que inserir em cada trecho a partir do clima musical.

Mesmo melancólico, pode ter graus catárticos, como “After the Flood”.

“Sem a interferência da gravadora, eles aproveitaram ao máximo e se trancaram para fazer o disco que queriam”, disse Keith Aspden, então manager do Talk Talk

“Taphead”, por outro lado, herda uma proximidade intangível com In A Silent Way (Miles Davis) e Electric Sonata For Souls Loved By Nature (George Russell), discos de 1969 que redefiniram o conceito eletrominimalista.

Com apenas 6 canções, Laughing Stock foi uma decepção comercial para a Polydor. Não que a gravadora não tivesse tentado; dona de um vasto catálogo de música experimental, por conta do selo Verve, esforçou-se na medida do possível para que o disco tivesse ampla aceitação.

Era mais um capítulo conflituoso de Mark Hollis e sua banda com majors: a EMI, que investiu quantia considerável enquanto o Talk Talk gravava Spirit of Eden, ficou irritada ao se deparar com o material que tinha em mãos. Afinal, um disco sem hits, como aquele de 1988, jamais chegaria ao número de vendas aproximado de The Colour of Spring. Para se antecipar às consequências, o então manager Keith Aspden decidiu romper o contrato, citando uma parte em que a banda exigia autonomia criativa. A EMI tentou processar; saiu perdendo a causa, mas não a oportunidade de alfinetar, lançando compilações e remixes não autorizados pelos integrantes oficiais.

Portanto, quando a Verve aceitou o Talk Talk, estava vulnerável a essa ‘nova fase’. Mesmo assim, cedeu uma verba considerável. “Sem a interferência da gravadora, eles aproveitaram ao máximo e se trancaram para fazer o disco que queriam”, disse Aspden em entrevista ao The Quietus.

Apesar da beleza, Laughing Stock trouxe um custo que ultrapassa valores comerciais: o Talk Talk jamais se reuniria novamente. “Soube no meio do caminho que este seria o último disco que gravaria com a banda”, contou Frise-Greene, sem nem um pingo de arrependimento. Mark Hollis desapareceu da imprensa durante muitos anos, e só ressurgiu para gravar o disco solo homônimo, em 1998, somente com sons acústicos.

A banda jamais conseguiu trazer o disco aos palcos, e você pode empilhar os muitos motivos para que isso não acontecesse. Que fique como argumento a mais para conhecer a obra final do Talk Talk. Isso vai demandar mais de uma audição.