
01 The Mystery of Two 02 Interstellar Low-ways 03 Neo-project #2 04 Cosmos 05 Moonship Journey 06 Journey Among The Stars
07 Jazz From An Unknown Planet
Gravadora: Cobra
Data de Lançamento: Agosto de 1976
Sun Ra dizia ser de outro planeta e, se Cosmos não afirma isso com veracidade, ao menos dá pistas de que suas explorações sonoras não têm limites.
Daqui ou de outra galáxia, a sonoridade vai de encontro com o improvável dentro de uma conexão que somente Sun Ra poderia estabelecer.
Apesar do nome, nenhum conceito permeia Cosmos.
Não há nem mesmo um nicho dentro do jazz que possa classificá-lo: arrisque free-jazz para “The Mystery of Two” e surpreenda-se com o fusion detectado em “Neo-Project Number 2”.
E não vá achar que “Interstellar Low Ways” é um medley – quem sabe a pausada sonoridade tirada pelo piano elétrico rocksichord (tocado pelo próprio Sun Ra) dê indícios de como seria estar vagando nas galáxias, no meio do nada? (Não vejo impressão melhor para descrever este tema, escrito por volta dos anos 1950 e ainda carregado de beleza e estranheza numa mesma proporção.)
Mesmo tendo uma discografia tão extensa quanto excêntrica, Cosmos é o disco que melhor associa Sun Ra à vertente jazzística. É o disco que sela a ligação entre a beleza terrena e o mistério de outro mundo.
A habilidade de bandleader e a justaposição dos instrumentos (com destaque para os sax-alto de Marshall Allen e Danny Davis) tomam formas intergalácticas no sentido de explodir. Explodir para terrenos atmosféricos, para fora dos padrões sonoros deste planeta.
A naturalidade com que essa quebra sonora é feita em Cosmos impressiona não apenas pela técnica musical dos envolvidos. Impressiona também pela forte associação que cria com o ouvinte em poucas audições.
Longe de ser um disco apenas para iniciados, Cosmos justifica as teorias filosóficas de Sun Ra como se ele fosse o responsável por nos colocar neste outro mundo, que existe e que influencia em nossa vida terrena. ‘Pegue você mesmo o navio lunático’, clama em “Moonship Journey”, onde as notas soltas do piano eletrificado parecem propulsores e a voz insistente de Sun Ra nos dá conforto nessa flutuação.
Com o andar da música, sentimos ultrapassar a camada de ozônio. As notas de baixo de Anthony Brown nos dão a sensação de que a viagem é benigna, refrescante e libertadora.
Qualquer tentativa de colocar um denominador comum em toda a obra de Sun Ra, que ultrapassa milhares de canções e centenas de discos, será em vão. Isso porque o jazzista não trabalhava campos musicais em específico: preferia pulverizar a si próprio, agrupar e bagunçar distintos elementos em distintas inspirações, do ragtime ao afro-funk futurista.
O grande destaque de Cosmos é servir como porta de entradas a um campo que deve ser essencialmente explorado.
Mais que excêntrico, Sun Ra é obrigatório.
