Gravadora: Capitol
Data de Lançamento: 1950

Um dos mais bem-sucedidos líderes do auge das big-bands de jazz do pós-guerra, Stan Kenton tinha talento e dinheiro para empreender algo inovador. Para quem costumava trabalhar com dezenas de músicos, ter grana era fundamental; não se tinha (e nem se tem) aval de grandes gravadoras quando uma decisão ousada estava em jogo.

Contando com mais de 40 músicos, o pianista decidiu que devia mudar. Cunhando termos como ‘jazz progressivo’ e ‘trabalhos experimentais’, em 1949 Kenton quis romper a trincheira entre o clássico e o jazz, contando com o suporte massivo de uma orquestra com 17 integrantes da seção de cordas, regidas por George Kast.

Por isso, fez questão de buscar os melhores instrumentistas de jazz à disposição: manteve o baterista de pegada Dixieland Shelly Mane, contou com uma sessão de metais que incluía, entre outros, Maynard Ferguson e Shorty Rodgers nos trompetes; Bill Russo e Milt Bernhart nos trombones (com outros três); Bud Shank na flauta; o brasileiro Laurindo Almeida no violão; e, não menos importante, a direção musical de Pete Rugolo, que ajudou Kenton a esticar a amplitude estética do seu trabalho.

A mais prestigiada revista de jazz havia celebrado, mas não se podia dizer o mesmo das demais publicações, “geralmente traduzidas como ‘não entendi a música, e não sei o que dizer sobre isso’”, como revelou o biógrafo Michael Sparke

Innovations in Modern Music começou como turnê em fevereiro de 1950. As reações foram pra lá de elogiosas. O crítico Ted Hallock disse, à DownBeat, de uma apresentação em Seattle: “Nossa linguagem é completamente inadequada para lidar com o que realmente aconteceu quando a assembleia de Kenton soprou, depenada, raspada e batida na mais significativa coleção de sons já ouvidas neste local”.

A ousadia dos arranjos e a desenvoltura da orquestra faziam com que Count Basie e Glenn Miller rumassem ao lado de referências clássicas como Stravinsky e Vivaldi, já anteriormente assimiladas por Kenton.

A mais prestigiada revista de jazz havia celebrado, mas não se podia dizer o mesmo das demais publicações. “Zênite artístico de toda a carreira de Stan, os concertos eram persistentemente tomados por críticas negativas, geralmente traduzidas como ‘não entendi a música, e não sei o que dizer sobre isso”, revelou o biógrafo Michael Sparke.

Para que o projeto Innovations não ficasse no limbo, a gravadora Capitol estimulou a gravação de um disco, para ser lançado o mais rápido possível. O álbum era um teste. A pretensão: gravar uma série que trouxesse as diversas composições conjuntas em uma série de LPs.

Então, em 1950, foi lançado Innovations in Modern Music – Part 1. Suas oito canções reuniam o suprassumo estético dessas experiências musicais. Do romantismo europeu ao gingado cubano, Stan Kenton estabelecia as pontes de um ritmo a outro com precisão, como se todos seus elementos estivessem intrinsecamente conectados.

O impacto musical é sentido logo na primeira faixa, “Trajectories”, de Franklyn Marks. A dinâmica dos naipes de metais parecia competir com a vivacidade da big band de Duke Ellington, com estouros dos ‘horns’ de John Graas.

A seguinte, “Theme For Sunday”, parece trilha de um filme intensamente dramático de uma Hollywood no auge do preto-e-branco. É tão volúvel quanto Vivaldi, mas a grande referência mesmo vem do russo Andre Kostelanetz (gênio que ia de Pucini ao songbook de Cole Porter). O solo de piano de Kenton soa como um andarilho trôpego, como se o personagem abstrato de sua composição caminhasse, sozinho, após uma farra.

O parceiro Rugolo contribui com duas composições. “Conflict”, que mexe com os sentidos por suas explosões que, como muitos críticos diziam de Kenton, pareciam emular os “estrondos da bomba atômica”. A outra do maestro, “Mirage”, era recriada nos palcos como forma de oferecer uma paisagem ao espectador: “Nos concertos, as luzes eram coreografadas para a representação gradual, completamente realizada, e lentamente desintegrada, de uma fantasia visual”, descreveu Sparke. “Isso era transformado numa inundação de luz branca, enquanto os metais climáticos explodem, e toda a orquestra revela a expansão e o esplendor de uma completa miragem”.

Totalmente assimétrica, a composição “Incident in Jazz”, do saxofonista Bob Graettinger (que, por sinal, não toca no disco), é um dos registros mais antológicos do disco. Este tema, por si só, resume toda a pretensão de Stan Kenton naquele momento: ela captura o brilhantismo das cordas e metais numa progressão harmônica atonal.

Dos acordes swingantes econômicos, à lá Count Basie, à massa corpórea tão forte como as melhores orquestrações do contemporâneo Woody Herman, “Incident in Jazz” é o auge. Se for para escolher uma música de Innovations, fique com ela. Mas não deixe de passar pelo desaguar blueseiro de “Lonesome Road”, com a doce voz de June Christy, que não demora a descambar num Broadway-meets-Schoenberg, com estouros repentinos em meio a um songbook. E, por fim, a incursão na música cubana em “Cuban Episode”, do congueiro Carlos Vidal, regência de Chico O’Farrill e importante desempenho de Laurindo.

Ao lado de Dizzy Gillespie, Stan Kenton foi um dos poucos líderes norte-americanos de big bands que se interessaram pela música cubana (posteriormente, em 1956, gravaria Cuban Fire!, que chegou às paradas Billboard).

Por mais excepcional que fosse a qualidade de Innovations, a Capitol fez de tudo para que Kenton desistisse de seguir adiante. Abortou o lançamento da parte dois do disco, que provavelmente traria registros de “Cello-logy” (Laurindo Almeida), “Gregory Bemko” (Bill Russo), “House of Strings” (Graettinger) – que, décadas depois, seriam lançadas em compilações.

O pianista ainda tentou reformular sua orquestra com a premissa do Innovations, mas teve que readaptar os músicos e se rearranjar profissionalmente, pavimentando novos caminhos.