
01 Schizophrenia 02 Catholic Block 03 Beauty Lies in the Eye 04 Stereo Sanctity 05 Pipeline/Kill Time 06 Tuff Gnarl 07 Pacific Coast Highway 08 Hot Wire My Heart 09 Kotton Krown 10 White Kross
11 Master-Dik
Gravadora: SST
Data de Lançamento: junho de 1987
Falou de Sonic Youth, não tem jeito, o disco que vem à cabeça é Daydream Nation (1988). Foi este álbum que selou não apenas a banda a um patamar de maior audiência por sua autorreciclagem sonora, mas por servir de norte à toda cena de rock alternativo norte-americano. Fica difícil pensar no que seria do rock dos anos 1990 sem este registro.
Mais difícil ainda seria pensar no que seria do SY sem o lançamento de seu disco anterior, Sister. Porque este disco é o que melhor explica a transição da no-wave, onde a marginalização sonora refletia um niilismo após a derrocada do punk, para o rock alternativo, que alcançaria seu ponto mais alto em Nevermind.
Nos três primeiros discos, o SY tinha uma verve mais agressiva e transgressivamente amadora. Tal amadorismo se provaria falso com o passar dos anos, principalmente com a chegada de Sister, que alocava as valiosas descobertas estéticas da no-wave numa estrutura próxima da música pop.
Tudo bem, ao ouvir petardos como “Pipeline/Kill Time” e “Pacific Coast Highway” o termo pop é a última coisa a saltar como comparação; ainda assim, é no formato estrutural que o quinto disco da banda revelou sua influência. E foi num processo de ‘condensar a fúria’ que temos aquela que pode ser considerada mais uma obra-prima do Sonic Youth.
Primeiro de tudo, as comparações com Daydream Nation devem ser anuladas. Se por um lado houve primor na forma de inserir caminhos melódicos em suas composições (rompendo de vez com os preceitos da no-wave), por outro são raros os momentos em que vemos o SY soar tão agressivamente inspirado como nas sujeiras de “Hot Wire My Heart” ou do sádico encerramento “Master-Dik”, que surgiu apenas na versão em CD como faixa-bônus. Os ensinamentos de grupos como Mars (do meio brasileiro, meio norte-americano Arto Lindsay) e James Chance & The Contortions, além das boas dicas do mestre Glenn Branca, são extravasados da forma mais catártica possível.
Da forma que o SY é conhecido hoje, ouvir “Schizophrenia” é lidar com a forma usual do trio Thurston Moore, Lee Ranaldo e Kim Gordon compor. Desse formato, surgiria posteriormente Goo (1992).
“(I Got a) Catholic Block” é mais impactante tanto pela velocidade dos riffs, como pela forma em que a dupla de guitarristas ‘acende a fogueira’. A melodia, que teria seu eixo perfeito em Daydream…, é facilmente notada e joga a favor. Dali, vemos como uma banda barulhenta pode se aproximar do pop.
Claro que, se estamos falando de um disco de transição, ecos do que o SY abandonaria nos anos seguintes permaneceriam em Sister. “Pacific Coast Highway” tem o noisy dos primórdios num canto em que Kim muito se assemelha a Jarboe, do contemporâneo Swans (também um grande desbravador da no-wave – Jarboe já não integra mais a banda oficialmente).
“Stereo Sanctity” faz uso das distorções catastróficas, mas eleva as possibilidades para o que anos depois se tornaria característico ao grupo de Thurston Moore: guitarras colocando em atrito noisy vs. melodia junto ao canto ágil de quem quer que seja o vocalista. A continuidade da linha de baixo, que mantém a canção de pé mesmo em momentos de pausa, permite que as guitarras brinquem uma com a outra, enquanto a bateria de Steve Shelley arrebenta geral.
Sister, inclusive, é o disco em que Shelley se firma nas baquetas. É aqui que a banda insere novas experimentações sônicas, como notas subversivas em violão e pedais distorcidos até o talo. Todas as faixas são de autoria da banda, com exceção da tortíssima “Hot Wire My Heart”, clássico de 1976 do Crime. Nenhum single saiu deste disco.
Como é de se esperar de um álbum fervoroso, ele foi elaborado durante a turnê de EVOL com o Firehouse, que depois se juntaria à banda em um projeto maluco chamado Ciccone Youth (provavelmente estimulada pela proposta de “Master Dik”).
Após Sister, uma porrada de bandas tentaria se agarrar ao trajeto feito pelo SY. Os tempos de no-wave estavam ficando para trás, dando espaço à renovação que afetaria uma geração inteira anos depois.
O rock alternativo, assim como a própria banda, deu passos estratosféricos depois deste registro. Daydream Nation pode ter sido o modelo perfeito, mas Sister é o disco que merece o título de esteticamente arriscado. Com doses cavalares de potência, claro.
