
01 Armina 02 A3 03 Armina (Vinheta) 04 A#2 05 A Matança do Porco 06 Armina (Vinheta 2) 07 Bolero 08 Mar Azul
09 Armina (Vinheta 3)
Gravadora: Odeon
Data de Lançamento: 1973
Eu já vi como se mata um porco. Primeiro, amarra o bicho. Em seguida, duas machadadas certeiras na cabeça. Faz um corte no que seria o pescoço e extrai-se o sangue.
De acordo com algumas crenças, é importante que nenhum espectador tenha dó do ato, senão o animal sofre mais. Ah, outra dica: segure bem as patas na hora de fazer os cortes. Pode ser que ele dê um último coice estrondoso.
Bom, como este não é um blog de abate ou de dicas para se tornar um bom açougueiro, não vamos entrar em mais detalhes de como decepar um porco. Mas, como seria presenciar uma cena dessas com a trilha sonora do Som Imaginário com o oportuno título: A Matança do Porco?.
Na verdade, vamos fazer o seguinte: deixe isso pra lá. Vamos nos ater ao som de um dos melhores álbuns instrumentais brasileiros de todos os tempos.
Terceiro e derradeiro disco do supergrupo mineiro (o seguinte, Milagre dos Peixes (1974), seria creditado a Milton Nascimento e Som Imaginário), A Matança do Porco faz uma transição entre os caminhos abertos pelo Clube da Esquina (cuja sonoridade foi construída a partir do Som Imaginário, bom frisar) e as possibilidades de se encontrar com a música de Eumir Deodato e outros influentes sons jazzísticos daquele momento, principalmente o fusion.
Formada inicialmente para acompanhar o cantor Milton Nascimento no show Milton Nascimento, ah, e o Som Imaginário (1970), o grupo formado por Wagner Tiso (piano e órgão), Tavito (violão), Luiz Alves (baixo), Robertinho Silva (bateria), Fredera (guitarra) e Zé Rodrix (percussão, órgão e flautas) formou uma das mais saborosas cozinhas musicais brasileiras.
Com o disco homônimo, de 1970, eles mostraram que a vertente tropicalista não era a única referência brasileira naquele momento quando o assunto era ótimas harmonias. Havia maior densidade psicodélica dentro de um outro tipo de libertinagem, como pode-se ver em “Pantera” e “Nepal”.
Em A Matança do Porco, eles decidiram suprimir os vocais para enfatizar novas buscas sonoras. Aí havia entrecruzamentos de rock progressivo com melodias cristalinas (“Armina”), uma estética que, a meu ver, pode ser entendida como bossa mineira (ouça “Armina 2″ e viaje você também), sem deixar de mencionar desenlaces musicais que formam uma sonoridade típica de um supergrupo.
Com seus mais de 11 minutos, a faixa-título segue uma linha progressiva tácita com solos catárticos da guitarra de Fredera – tipo um “Interstellar Overdrive” do ET de Varginha. As linhas de piano de Tiso formam um modal sinistro, estabelecendo uma conexão entre Dave Brubeck e King Crimson. Arrepia.
Milton Nascimento também contribui com seus vocais na faixa-título. Mas não pense que é uma ‘forcinha’ dele ao grupo – na verdade, é um agradecimento. Não fosse o Som Imaginário, talvez não houvesse o Clube da Esquina.
“A gente deu uma costela pop para o Milton”, disse recentemente o violonista Tavito ao jornal O Globo. “O Som Imaginário foi um embrião do que ele iria desenvolver com o Clube da Esquina. Éramos um grupo de músicos que não tinha nada a perder, só a ganhar”.
Apesar de ser um dos álbuns mais emblemáticos de toda a música brasileira, A Matança do Porco é mais entendido como uma obra de Wagner Tiso, que formou todas as ideias de composições, que do próprio grupo. “O Som Imaginário acabou no segundo álbum. O terceiro é um solo do Wagner”, acusou Fredera nessa mesma entrevista de O Globo.
Para fãs de lindas melodias e explosivos temas instrumentais, fica difícil aceitar A Matança do Porco como uma bola fora. Pra mim, continua um acerto dos grandes, ainda que o disco tenha contribuído para o fim da banda naquele momento.
Mas, se houve desavenças, elas ficaram pra trás. No ano passado, integrantes da banda se reuniram para tocar na íntegra este disco no Sesc Belenzinho, em São Paulo. O relativo sucesso garantiu que o Som Imaginário tocasse mais vezes, inclusive no Rio de Janeiro.
Será que ainda há gás para um novo disco? Quem sabe…
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A seguir ouça A Matança do Porco, do Som Imaginário, na íntegra:
