
01 Breadcrumb Trail 02 Nosferatu Man 03 Don, Aman 04 Washer 05 For Dinner…
06 Good Morning Captain
Gravadora: Touch and Go
Data de Lançamento: 15 de março de 1991
O que hoje se convém chamar de post-rock vem diretamente de Spiderland.
Segundo e último disco da banda de Louisville (EUA), Spiderland é basicamente calcado em alternâncias sonoras que ligam sentidos como desolação e relativa ira por meio de guitarras barulhentas e vocais melancólicos.
Dizendo assim, parece que estamos ensaiando uma resenha de um disco de grunge – ainda mais quando o disco é do mesmo ano de um certo Nevermind. Mas os riffs imprevisíveis nas guitarras de David Pajo e os vocais bucolicamente discursivos de Brian McMahan criam um som atmosférico onde o que vale não é bem ‘curtir’ o som. E, sim, com ele se estranhar, se sentir confrontado e baleado por sua controlada urgência.
Como a maioria das obras-primas, Spiderland surgiu da improbabilidade. O primeiro disco, Tweez, prima pelo barulho e mostra exímio virtuosismo principalmente por parte das guitarras de McMahan/Pajo e a bateria de Britt Walford (“Nan Ding” é farta prova). (Quanto ao baixista Ethan Buckler, ficou insatisfeito com a produção de Steve Albini e depois de algumas discussões resolveu deixar a banda.)
Sem Buckler e sem a crua produção de Albini, o Slint deu o lugar de baixista a Todd Brashear e foi aos estúdios com praticamente nenhuma composição pronta. A produção ficou por conta de Brian Paulson, que futuramente trabalharia com o Wilco.
Os quatro dias de gravação do álbum foram tão exaustivos para a banda que há rumores de que alguns deles tenham ido parar no hospício. Lenda ou semiverdade, o axioma é que Spiderland pavimentou o caminho para que grupos como Mogwai, Godspeed You! Black Emperor e Stereolab explorassem a estética do álbum como um gênero já estabelecido.
A primeira faixa, “Breadcrumb Trail”, coloca o ouvinte numa estrada nebulosa que aos poucos caminha diretamente para as profundezas de um rock poderoso, graças ao alto volume das guitarras. O grito incontido de McMahan simula uma morte após a alta velocidade nessa tal estrada abstrata. E aí ele descreve: ‘Se arrastando para o céu/Parando, no topo, e começando a descer/A garota agarrou minha mão/Eu a segurava com força/Disse adeus à superfície’.
Como o próprio nome diz, “Nosferatu Man” faz menção ao filme Nosferatu, da década de 1920, contando um encontro dele com uma ‘bonita garota’. A justaposição do baixo e da guitarra formam uma sonoridade madrugal, que ganha contornos de horror com os curtos solos de guitarra que lembram o ouvinte de que ele está diante de uma fábula – a obra-prima das fábulas, tanto em sua narrativa como em sua temível sonoridade.
“Don, Aman” prossegue como ‘drone’, aquele momento em que o som se preocupa mais em criar uma atmosfera do que se estruturar no formato convencional de canção. “Washer” não perde no quesito melancolia para as demais canções, mas pelo menos envereda em um ambiente mais aberto, como se o Slint já tivesse trafegando pela luz do dia (‘o sol vai nascer novamente’, canta McMahan) depois de muito perambular pela noite.
O clarear, obviamente, não significa bem a dissolução de mistérios. Não a julgar por “For Dinner…”, faixa que prima por um silêncio mais calmo apenas levado por uma guitarra em crescendo e bumbos controlados na bateria.
As coisas ficam realmente estranhas com a música de encerramento, “Good Morning, Captain”, que já chegou a ser comparada com “Stairway To Heaven”, do Led Zeppelin. De forma imprevisível, o Slint engana o ouvinte com solavancos sonoros. A referência é o poema sobrenatural O Conto do Velho Marinheiro, do escritor inglês Samuel Taylor Coleridge. Nele, o grupo joga o ouvinte para uma aventura nos mares repleta de excitação, romantismo e, claro, improbabilidade – principalmente depois que o vocalista sussurra ‘desculpe, te perdi’. A partir daí, a bateria destila ácido por conta da provocação que vem dos riffs de guitarra.
E o que são aqueles gritos da última canção do disco? Provavelmente o prenúncio de que o Slint já estaria abandonando o oceano musical após Spiderland. Desespero, prévia saudades, tortura: interprete esse adeus como quiser.
