
01 Sugar Man 02 Only Good for Conversation 03 Crucify Your Mind 04 This Is Not a Song, It’s an Outburst: Or, the Establishment Blues 05 Hate Street Dialogue 06 Forget It 07 Inner City Blues 08 I Wonder 09 Like Janis 10 Gommorah (A Nursery Rhyme) 11 Rich Folks Hoax
12 Jane S. Piddy
Gravadora: Sussex
Data de Lançamento: março de 1970
Ao assistir o documentário Searching For Sugarman, que deu ao diretor sueco Malik Bendjelloul um Óscar por desvendar brilhantemente a história de um compositor esquecido em seu país de origem, temos a impressão de que a biografia é maior que a obra de Sixto Rodriguez.
Na verdade, é a música de Rodriguez o principal motivo de glorificação do seu legado.
Foram apenas dois álbuns lançados, considerados clássicos em qualquer esfera. Se isso não ficou evidenciado nos anos 1970, o tempo fez justiça à sua grandiosidade em dois momentos cruciais: quando os australianos o chamaram para uma lucrativa turnê em 1979 e 1981 após surpreendentemente o disco permanecer firme na lista dos mais vendidos da Billboard; e quando uma fita de Cold Fact foi parar nos círculos jovens da África do Sul, garantindo outra turnê sold-out para milhares de aficionados.
Lançado originalmente em março de 1970, a estreia Cold Fact de cara rompeu com qualquer ideário utópico da década anterior. Pena que, na época, pouquíssimos perceberam.
Caso fosse devidamente contextualizado em seu tempo, Cold Fact seria entendido como reação ao cansaço da desilusão dos anos 1960 e a trilha pé no chão para encarar os duros anos 1970.
Rodriguez inicia o disco reflexivo com “Sugar Man”, cuja letra refere-se ao vício em drogas: ‘Navios mágicos de prata você carrega/Saltadores, cocas, doce mary jane’ – sendo este último provável referência à marijuana. Os loopings psicodélicos jogados nos momentos finais remontam à chapação do passado, que na letra e na melodia ganham tom de solenidade, de algo deixado pra trás.
Mesmo com recursos escassos, Rodriguez teve à mão um excelente time de músicos ao seu lado: do guitarrista Dennis Coffey aos arranjos de cordas da Detroit Symphony, o folk de Rodriguez ganha contornos híbridos e eletrificados que enriquecem ainda mais o teor de suas maduras composições.
Para falar sobre a ‘prostituta mais fria que já conheci’ numa Detroit devastada pela ambição industrial em “Only Good For Conversation”, nada como o riff instigante de Coffey, que também assume a produção do álbum (ao lado de Mike Theodore). O baixo de Bob Babbitt é a grande sacada de “I Wonder”, faixa em que Rodriguez mostra sua vulnerabilidade em um relacionamento que ainda não existe: ‘Imagino quantas vezes você fez sexo/(…) Você não imagina?’.
Mas não pense que Rodriguez é um ingênuo quando fala de emoções. Em “Like Janis”, deixa toda sua sinceridade à disposição, mas ‘você não entende? E você não vê além/Estou tentando não tirar nada de você’. Mas a frase valiosa é esta: ‘Você mede o amor apenas pelas coisas doces que diz’.
Em Cold Fact, emoções e percepções estão intrínsecas na mente de Rodriguez. Imagine uma cidade como Detroit nos anos 1970: empregos despencando com a desilusão do setor automobilístico e um cenário cinzento após as duras batalhas dos direitos humanos, cujo cerne foi a morte de Martin Luther King Jr., que havia proferido o discurso I Have a Dream na cidade sete anos antes.
O indivíduo Rodriguez, no aspecto social, é tão complexo quanto o Rodriguez sentimentalista das canções mencionadas. Pelo menos em Cold Fact, é o compositor em sua forma mais detratora quem toma os holofotes. Em “Rich Folks Hoax”, rejeita qualquer rótulo de sucesso alheio como modelo a se seguir: ‘Então não me conte sobre o seu sucesso/Não é receita para minha infelicidade/Fumar na cama/Jamais iria digerir/Tais ilusões que você diz ter’.
“Crucify Your Mind” é uma de suas faixas mais emblemáticas. Foi a canção que tornou-se hino jovem ante o apartheid sul-africano. Nela, Rodriguez convida o sujeito a se posicionar politicamente (‘e você clama que tem alguma coisa acontecendo/Alguma coisa única’). Ao mesmo tempo, a canção funciona como a consciência daquele político explorador, que vem com o mesmo discurso para se manter no poder: ‘E você assume que tem algo a oferecer/Segredos novos e brilhantes/Mas o quanto de você é a repetição/Que você também não quer sussurrar a ele?’.
A materialização do que uma política ruim pode provocar está contida em “This Is Not a Song, It’s an Outburst: Or, the Establishment Blues”. A listagem de infortúnios é extensa e não é preciso imaginar uma Sodoma ou Gomorra; do ‘papa que enterra a população’ às ‘donas de casa que acham a vida tediosa’, a faixa se identifica com um número grandioso de cenários conflituosos – o que justifica sua assimilação direta pelos ouvintes da África do Sul nos anos 1980 e, ainda hoje, mexe com os inquietos que muito têm a questionar a situação política de seu país, não importa qual seja.
