Gravadora: Cosa Nostra
Data de Lançamento: 3 de outubro de 1997

Que os Racionais MCs foram um divisor de águas no hip hop nacional, disso não há dúvidas. Eles bateram de frente contra as impunidades do sistema, denunciaram a negligência da sociedade com os moradores de periferia e traçaram um retrato do país e da capital paulistana longe dos centros urbanos com grande afinco, com a voracidade de quem vivencia na pele as destrezas de uma realidade excludente.

Na verdade, os Racionais tiveram um divisor de águas mesmo em sua carreira artística. E o principal responsável por isso foi o álbum Sobrevivendo no Inferno, lançado em 1997.

Foi nesse trabalho que o sucesso estrondou; do ‘playboy‘ nadando em grana ao miserável que enfrenta a vida nas ruas para comer um pão em casa, os Racionais foram ouvidos por todas as classes, por todos os elementos que compõem a escala da sociedade.

Um fator que contribuiu fortemente para que isso acontecesse foi a incorporação do videoclipe “Diário de um Detento” na programação da MTV. Ali, Mano Brown mostrou a todo o Brasil a realidade dos presídios como se estivesse na pele de um presidiário, relatando as angústias (‘Mato o tempo pra ele não me matar‘) e o pessimismo que toma conta da vida de quem vive atrás das grades (‘Minha vida não tem tanto valor/quanto seu celular, seu computador‘).

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Menos agressivo, mais narrativo

Sobrevivendo no Inferno é um avanço diante do trabalho anterior, Raio X Brasil, lançado em 1993. Mesmo com o sucesso de “Fim de Semana no Parque”, que mirava os olhos para as crianças carentes e pode ser considerada uma grande influência para os jovens favelados; ou “Homem na Estrada”, que parte para um relato em primeira pessoa, pontapé inicial das melhores letras que Mano Brown já escreveu, o álbum evoluía da denúncia de um sistema falho para uma jorrada de acontecimentos drásticos que abalam o ambiente periférico.

A partir deste disco, os Racionais trocou o grosso modo de escancarar de forma revoltada a realidade das ruas para demonstrar com precisão o pensamento do jovem que mora na periferia. Noutras palavras, menos agressivo e mais narrativo.

E é aí que a música dos Racionais provoca um efeito mais profícuo musicalmente. A mensagem torna-se mais eficiente, porque o grupo realmente dedica-se a mostrar um panorama do contexto social que viviam empiricamente – seja com Edi Rock repassando o cotidiano dos excluídos em “Periferia é Periferia”, ou com Mano Brown clamando por uma redenção, por uma utopia distante em “Fórmula Mágica da Paz”.

A narrativa de “Eu Tô Ouvindo Alguém me Chamar” é, até hoje, vista como uma das grandes inovações do rap nacional. Em cerca de 11 minutos, Brown recorre à primeira pessoa para mostrar como se é cooptado para o crime quando se mora na periferia. Ele vê a imagem de Guina como um verdadeiro líder, quase um ídolo – parecido com aqueles líderes empresariais que vivem dando palestras sobre como ser bem-sucedido.

Pensando bem que desperdício/Aqui na área acontece muito disso/Inteligência e personalidade/Mofadas atrás da porra de uma grade‘, reflete o rapper. Nela, KL Jay cria um clima sinistro pra música, tirando a base de “Charisma”, um R&B visceral de Tom Browne. E Mano Brown desenrola dos fatos e o clímax da história como se estivesse sentado numa mesa de bar.

Contra o preconceito

Muitas músicas desse álbum se tornaram clássicas. A introdução polêmica de “Capítulo 4, Versículo 3” (“60% dos jovens de periferia sem antecedentes criminais já sofreram violência policial“) mostra que, mesmo 100 anos depois da abolição da escravatura, os negros ainda estão distantes de conquistarem os melhores cargos. E é esse fato que suscita numa violência generalizada que dá margem para mais preconceito.

As ramificações da pobreza e da miséria se estendem: de moleque drogado que é obrigado a sobreviver nas ruas (“Mágico de Oz”) ao príncipe da favela que esbanja simpatia com suas conquistas econômicas, como moto e dinheiro (“Qual Mentira Vou Acreditar”), o tema não muda: preconceito. Isso porque é uma praga que deteriora a possibilidade de integração racial e social no país.

Essa é a bandeira que o hip hop assumiu e que os Racionais moldaram em sua melhor forma: o relato de um Brasil sob o viés da miséria. Isso está intrínseco e precisa ser escancarado. E Sobrevivendo no Inferno, certamente, é o maior documento desse legado.

*Texto originalmente escrito no blog O Atemporal, com atualização em 2017