Voltemos a 1982. A música negra passava por uma evolução constante. No fim deste ano, todos ficariam espantados com toda a dança envolvente de Thriller, de Michael Jackson, principalmente após aquele videoclipe que revolucionou o mercado musical.
Aquele ano também traria outras pérolas, como o single “Sexual Healing”, de Marvin Gaye, e a revolucionária “The Message”, do Grandmaster Flash, que dava os primeiros passos para a consolidação do hip hop. Sem falar que Miles Davis estava começando a dialogar com a música moderna e retomando seu período criativo com o trompete… (Miles Davis sempre foi um grande admirador de Prince, tanto que gravou um disco –Tutu – que lembra muito as incursões musicais do multiinstrumentista.) E, claro, não podemos esquecer da imensa contribuição que veio de Prince.
1982 também foi o ano de 1999, disco duplo do cantor que fundiu rock com funk de uma maneira sexista, despudorada e bem divertida. “Little Red Corvette”, com todo o gingado que deve ter inventado a disco music, é tomada por efeitos futuristas que, de forma ou outra, prevalecem em todo o disco, fazendo honrar o título.
A primeira parte do então LP duplo é bem dançante e exibe toda a inovação musical de Prince: ele pegou o funk de James Brown, colocou sintetizadores dançantes para dialogar com a disco, sem falar nos riffs roqueiros e psicodélicos de sua guitarra. Na verdade mesmo, Prince foi quem tocou todos os instrumentos – tirando as palmas e vozes que ficam ao fundo de faixas como “Lady Cab Driver” (com sussurros de uma mulher que parece estar atingindo o orgasmo) e “Let’s Pretend We’re Married”.
Vendo que o álbum tinha revolucionado aquele período, muitas das inovações musicais de 1999 iriam acompanhar o restante da obra de Prince. Para chegar na ótima simbiose entre rock e disco de “When Doves Cry”, de Purple Rain (1984), o público delirou dois anos antes com a explosão funkeira de “D.M.S.R.” (sigla para dance-music-sex-romance) ou aquela bela música de estádio da faixa-título. “Purple Rain”, então, aquela balada chiclete, pode ser resultado da mesma inspiração que Prince teve em “Free” ou “International Lover”.
1999 é um disco que já estava muito a frente do tempo, até mesmo do título proposto. Ele cria uma aproximação da música negra com referências eletrônicas, o universo homossexual, o próprio conhecimento do ser humano através do sexo, sem falar que ainda critica a beligerância das armas nucleares na faixa-título.
