01 Corredor Polonês 02 Pesadelo 03 Chapeuzinho Vermelho (Lil’ Red Riding Hood) 04 Tô Tenso 05 Poema em Linha Reta 06 Teu Bem 07 Três por Quatro 08 Pregador Maldito 09 Vida de Operário

10 Maria Louca

Gravadora: WEA
Data de Lançamento: 1987

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Não deixe-se enganar pelo nome autodepreciativo: a Patife Band, apesar de retratar mazelas e dissabores, destacou-se como uma banda altamente superior.

Foi germinada no áureo período da Vanguarda Paulista mas, se é ao rock que cabe seu legado, saiba que você está diante de uma das maiores de nossas terras no gênero.

Na mesma linha torta do irmão Arrigo Barnabé – que, ao lado da banda Sabor de Veneno, galgou seus primeiros passos esteticamente revolucionários com Clara Crocodilo (1980) – Paulo Barnabé trouxe os ensinamentos de dodecafonia, ‘ritmos assimétricos’ e ‘células atonais’ numa estrutura em que ouvintes identificariam traços do rock.

Corredor Polonês foi o primeiro e único álbum. A banda, formada em 1984, estreou com o EP homônimo, cujo destaque era a regravação de “Tijolinho”, de Wagner Benatti. O EP também trouxe as primeiras versões de “Pregador Maldito”, “Pesadelo” e o clássico “Tô Tenso”, um dos grandes hinos da banda.

Absolutamente cosmopolita, “Tô Tenso”, que foi escrita por Paulo em parceria com Arrigo e Itamar Assumpção, tem em seu teor antiestablishment a força para uma pregação punk. Os riffs pesados de André Fonseca e a bateria de Cidão Trindade (que substituíra James Müller) formam o dúbio nervoso, até que a voz de Paulo pede mais experimentos, que resultam numa jam que vai do punk, passa pelo free-jazz e ska e termina de forma explosiva, como uma boa música de rock deve ser!

O disco tem menos de meia hora de duração, mas reúne elementos tão diversos, que chamá-lo simplesmente de rock soa limítrofe.

“Poema em Linha Reta”, musicado sob poesia de Fernando Pessoa, é acid-jazz hiperbólico e sujo, com um trecho que dá vontade de repetir milhares de vezes pra fincar na mente: ‘Irrespondivelmente parasita/Indesculpavelmente sujo’. Tente uma, duas, três, quatro, cinco vezes… Ao final, você vai gritar SUJO e PORCO com tanto afinco, que se tornará um séquito imediato da banda.

“Teu Bem” é surf-music satírica, cuja onda te engana como a maré calma; “Chapéuzinho Vermelho”, ainda mais ultrajante, não é tão amorosa quanto aparenta; o cover de “Vida de Operário” foi absurdamente transfigurado da versão dos Excomungados, ganhando um traço sertanejo menos como forma de ridicularizar as famigeradas duplas que cantavam seus tristes ocasos do Nordeste, e mais como tentativa de identificar-se com a maioria regional que passa pela difícil situação de proletário (situação ainda pior nos anos 1980).

Certamente que um disco com nome Corredor Polonês teria faixas pesadas. Coloque nesse rol a faixa-título, que já chama logo de cara um bate-cabeça tresloucado com os solos excitantes de Fonseca. “Pesadelo” é ainda mais tensa e urgente, indo de encontro ao trabalho de outras bandas punk brazucas, como Garotos Podres e Inocentes (que abriu as portas para que outras bandas, assim como a Patife Band, assinasse com uma major como a Warner). “Três por Quatro”, com menos de 1min de duração, faz mais pela versatilidade do rock brasileiro que qualquer disco inteiro do Biquini Cavadão. Sem deixar de mencionar, claro, o clássico do pogo “Tô Tenso”.

As técnicas dodecafônicas aplicadas em Corredor Polonês não encontram paralelo com nada produzido na época por bandas brasileiras. É mais fácil identificá-lo como nossa versão de um Locust Abortion Technician, também de 1987, ou como uma semente muito bem germinada no meio termo Frank Zappa–Captain Beefheart.

Para finalizar Corredor Polonês, a Patife Band soa ainda mais engrandecida com a jam de “Maria Louca”. Ecos de Banda Black Rio (Maria Fumaça na cabeça!), prog-rock doidivanas, Maggot Brain e performances de arrepiar de cada um dos quatro músicos formam o mantro sagrado de um disco que, ao invés de ser a ponta de uma carreira prolífica, tornou-se o único registro oficial da banda paulista.

Sem ele, talvez não teríamos a junção agreste-punk-estapafúrdio que originou os Raimundos. Com ele, o rock brasileiro diminuiu a carência de grupos espontaneamente criativos e anticopiosos de tendências estrangeiras no âmbito roqueiro.

Provavelmente o gênero teria mais forças para crescer se a Patife Band não tivesse interrompido suas atividades, o que faz de Corredor Polonês uma vaca sagrada quando se fala de rock nacional, em qualquer vertente que seja.