Gravadora: Paw Tracks
Data de Lançamento: 20 de março de 2007
Kylie Minogue, Kraftwerk, Scott Walker, The Tornados e Lee ‘Scratch’ Perry poderiam modular o imaginário de qualquer ser que gosta de música. No entanto, nomes tão diferentes assim não caberiam em um mesmo espaço – nem mesmo em um álbum descolado de hip hop.
Eles fazem músicas distintas. Sensoriais e dispersas, sob diferentes modos.
Person Pitch, terceiro disco de Panda Bear, aglomera isso tudo. Mas citar apenas os samplers desse disco não é adequado. Pior, pode dispersar o ouvinte de uma experiência tão extravagante quanto abstrata.
Aos que não conhecem, Panda Bear – nome artístico de Noah Lennox – é membro do Animal Collective. Ele colabora com os vocais etéreos e programações nada óbvias que colocam em um mesmo caldo música tribal e dream-pop. Quem já ouviu discos como Feels (2005) ou Strawberry Jam (2007) sabe do que estou falando.
Desde que foi lançado, Person Pitch carregou mais elogios do que exercícios de incompreensão. Vocais à lá Brian Wilson, inserção tecno-minimalista e flutuações ondulatórias já foram mencionados aos montes no disco.
Mas o que representa o fator repetição, tão bem catapultado aqui? Como as batidas permitem a entrada de outros elementos híbridos – incluindo os drones esquisitos de “Search For Delicious”? Temos no disco um referencial aos barulhos do pós-guerra, como sugere “Comfy in Nautica”?

O disco passa longe de recursos técnicos; está mais para apropriação farta de improbabilidades sonoras que, curiosamente, parecem trilhar nossos sonhos mais profanos e irrealistas.
Essa viagem já começa com os tamborins e barulhos aquáticos de “Take Pills”, até que Lennox abandona o ouvinte à sua própria revelia na misteriosa selva de “Bro’s”, cuja seção rítmica nos faz acreditar que, nessa selva, existem elfos e fadas.
São 12 minutos exploratórios: uma abertura de mente que nos torna semelhantes à personagem Ophelia, de O Labirinto do Fauno.
Mais intensa é a sonoridade de “Good Girl/Carrots”. Percussões bárbaras e vocais multiplicados dão um senso de perigo. Um senso de estarmos prestes a ser devorados por algo maligno: um canibal, um monstro, um espectro.
Também com duração de 12 minutos, o que era passeio em “Bros” se transforma em momentos agonizantes. Se fosse parte de um sonho, saberíamos que a melhor coisa era acabar com aquilo tudo o mais rápido possível. Como música, “Good Girl/Carrots” é fulgurante. Lennox brinca com a propulsão para, a partir dos 5 minutos, sugerir uma boa jornada pós-susto com violões, sintetizadores, progs e bateria.
O hibridismo musical de Person Pitch parece ter um teor mais anárquico do que parece. Não há uma sensação linear em cada uma das sete faixas do disco. Tudo flui com volatilidade, e não sabemos mais se determinadas sonoridades permeiam mais nossos sonhos, desejos ou a vã realidade.
Eis aí uma pretensiosa bagunça – daquelas que fazem bem aos ouvidos.
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