Gravadora: Warner
Data de Lançamento: 15 de setembro de 1999

O Rappa tinha apenas 6 anos de existência quando lançou o álbum que o colocou na linha de frente do pop-rock nacional. Com Lado B/Lado A (1999), a banda carioca conseguiu um marco inédito no mainstream: unir rock, ragga e rap com letras que mapeiam violência policial, ausência do Estado nas favelas do Rio de Janeiro, a dificuldade de se locomover até o trabalho…

O cenário ‘anticidade maravilhosa’ foi traçado e ampliado em uma magnitude hoje reconhecível no noticiário.

Vinte anos depois, domínio de milícias, atuação do Exército e operações misteriosas nos morros jorram ainda mais sangue em um estado que continua em guerra consigo mesmo. Os mais prejudicados, infelizmente, são os que mais carecem desse estado: os mais pobres.

Quando começou a compor as letras do 3º disco d’O Rappa, o baterista Marcelo Yuka já tinha em mente a energia magnética da banda, com Falcão nos vocais, Lauro Farias no baixo, Marcelo Lobato em teclados e vibrafone, além do guitarrista Xandão.

O disco anterior, Rappa Mundi (1996), já tinha consolidado uma boa base de fãs, com os hits “Pescador de Ilusões”, “O Homem Bomba” e a versão de “Hey Joe” (Jimi Hendrix).

“Seria fácil fazer um Rappa Mundi 2 e ganhar mais grana, mas não é isso. Nós amadurecemos, nossa música melhorou a nossa vida”, disse Falcão na época à Folha de S. Paulo. “Esse trabalho, nós fizemos do jeito que a gente quis, num clima família. Se não vender nada, dane-se, estamos felizes com o resultado”, complementou Yuka.

O Rappa contra a violência policial

Mais crítico que qualquer outro trabalho que lançou ou viria a lançar, Lado B/Lado A consagrou O Rappa como porta-voz de uma geração que estava começando a se contextualizar dos problemas sociais do país.

É importante destacar: com o Plano Real, o Brasil passou a desfrutar um bom momento econômico, mas efêmero, deixando muitas pessoas confortáveis com a estandardização do ‘padrão de vida’.

Enquanto isso, o rap já estava batendo na tecla de que havia um muro invisível que separava a periferia de tudo que era considerado desenvolvido. Conectados a esse universo, O Rappa deu largos passos na construção como uma banda engajada.

Nesse sentido, talvez Lado B/Lado A seja o disco mais importante da carreira da banda. “A delimitação do corpus recaiu sobre Lado B/Lado A pela peculiaridade da obra, que é a de falar da primeira à última canção sobre o mesmo tema”, escreveu a pesquisadora Maria Rita Arêdes, em tese de pós-graduação para a Universidade de São Paulo (USP).

O tema, no caso, é discutir como a ausência do estado criou essa separação entre ricos e pobres – e como a atuação do estado, representado pelas ações truculentas da polícia, contribuía para a recorrente violação de direitos humanos nas comunidades cariocas.

Lado B/Lado A: hits e crítica social

A polifonia sonora de Lado B/Lado A foi essencial para fazer com que canções tão críticas ganhassem ampla projeção.

O diálogo proposto em “Tribunal de Rua”, com um interlocutor que parece meio ‘oculto’ em dueto com Falcão, é exemplo do medo da repreensão ao narrar a forma como os policiais costumam abordar os cidadãos nos morros cariocas. Nesta canção, elementos do samba e da eletrônica criam um ar de familiaridade, mostrando que tudo isso acontece em nosso terreno – só não vê quem não quer.

“Tribunal de Rua” desenha parte do contexto que permeia o disco. É uma canção que, por exemplo, dá outro sentido a “Me Deixa” e “Minha Alma (A Paz que Eu Não Quero)”, que se tornaram dois dos maiores hits do disco.

Assim, “Me Deixa” torna-se a manifestação de uma cólera contra os aparatos de repressão, que podem se aproximar dele mesmo no sossego de sua casa. E “Minha Alma”, melhor assimilada após o lançamento do clipe dirigido por Katia Lund, se engrandece enquanto manifestação de tédio (pela exclusão) e condescendência involuntária, como ilustra o seguinte trecho: ‘Qual a paz que eu não quero conservar pra tentar ser feliz?’.

O macroambiente posto em Lado B/Lado A é melhor exemplificado em “O Que Sobrou do Céu” e “Favela”, mas não se trata somente disso. O Rappa também aponta crônicas para refletir conflitos individuais, seja na busca de uma religião (“Cristo e Oxalá”) ou em busca do autoempoderamento expresso na faixa-título (que teve Bill Laswell como coprodutor).

Conciso e homogêneo, Lado B/Lado A intensificou a energia nos palcos, dando um sentido combativo às apresentações que acompanhariam a trajetória da banda ao longo dos anos.

Parece estranho que composições tão críticas tenham se tornado grandes hits, mas a verdade é que o disco ajudou a abrir os olhos de jovens e adultos que ainda não dispunham de informações que costumavam ser ignoradas pelos jornais.

A realidade pode não ter mudado muito ao longo de 20 anos, mas o poder transformador de Lado B/Lado A foi efetivo: fazer com que o mainstream adote um posicionamento contundente sobre as mazelas do país, influenciando uma geração de novos artistas e ouvintes que começaram a se engajar em causas como inclusão social e direitos humanos.

Leia também: Crítica do disco …Nunca Tem Fim, de O Rappa (2013)