
01 Cinnamon Girl 02 Everybody Knows This Is Nowhere 03 Round & Round (It Won’t Be Long) 04 Down By the River 05 The Losing End (When You’re On) 06 Running Dry (Requiem for the Rockets)
07 Cowgirl in the Sand
Gravadora: Reprise
Data de Lançamento: 14 de maio de 1969
Neil Young é um humano estranho, mas muito sentimental. A ponto de te emocionar tanto com suas composições sobre relações humanas – que vão das dimensões amorosas à contemplação do seu melhor amigo chorando – como com seus solos blueseiros e lentos, variáveis e carregados de uma personalidade em que os dedilhados soam apenas como detalhes.
Hoje o canadense está com 68 anos e sua obra já soma mais de 50 discos, incluindo os trabalhos com Crosby, Stills & Nash e Buffalo Springfield.
De sua carreira solo muito se menciona Harvest (1972), mas ainda vejo Everybody Knows This is Nowhere, o primeiro com a banda Crazy Horse, como o álbum que vai te levar às profundezas mais sentimentais do bardo. E, não só isso: vai te levar às suas próprias profundezas.
Apesar da densidade, Neil Young não precisou ir muito longe para escrever as principais canções, que até hoje ficaram eternizadas tanto nas rodinhas country, como nas roqueiras.
As febres de quase 40° C o acompanharam enquanto rabiscava as letras de “Cinnamon Girl”, “Down By The River” e “Cowgirl in the Sand”, não por acaso os três grandes destaques de Everybody Knows This is Nowhere.
“Cinnamon Girl” começa com um riff feliz, pra cima. Young diz que está feliz com a sua ‘garota cor de canela’, mas logo ela parece se ausentar.
A faixa-título já o mostra a procura do seu lar, daquela mulher que ele sabe que está o esperando. Se a palavra saudade tivesse tradução em inglês, provavelmente descreveria “Everybody Knows…” com maior precisão: ‘Toda vez que penso em voltar pra casa/É fresco e arejado/Eu queria poder estar lá agora/Apenas passando o tempo’.
No entanto é o clima de “Round and Round” que se fixa no álbum. A entrada da voz de Danny Whitten dá um clima de dueto amoroso, mas logo o ouvinte percebe que são dores compartilhadas, como se um estivesse estendendo o ombro ao outro.
“Down By the River” é a que exibe os solos mais exuberantes – isso porque as guitarras descrevem melhor as contidas emoções na letra da música. Mas a história é trágica: um rapaz assassina a mulher amada e, pelo que parece, também se mata a fim de ‘ser arrastado além do arco-íris, me levar pra longe’.
Parece uma tragédia shakespeariana, mas os contornos da mais densa canção do disco são blueseiros (ainda mais quando se tem a máxima de Son House em evidência: de que o blues é e sempre será a história triste de um amor).
Em “Losing End”, a tradição norte-americana vai para o country, numa composição toda caipira. Um homem procura a mulher, e ela nunca está. Neil Young dá pistas de (e a melodia endossa) uma vida pacata, porque não apresenta alternativas do que o rapaz poderia fazer enquanto a espera – é como se vê-la fosse a única coisa excitante em toda a sua vida.
“Losing End” revela muito sobre Everybody Knows This is Nowhere: é um álbum em que o pertencimento a um lugar e a procura de um novo amor caminham juntos. A soma desses dois sentimentos completa a felicidade do homem. Sua ausência, como podemos perceber nas melodias de uma “Running Dry (Requiem For the Rockets)”, nos tornam poéticos e, ao mesmo tempo, vazios.
Ainda que o lar e o sentimento sejam temas recorrentes tanto no country, como no blues, Neil Young opta por uma composição mais complexa em “Cowgirl in the Sand”, que encerra o disco. Ele tenta decifrar as personalidades de uma mulher, mas parece estar mais atraído pelas possibilidades simbológicas dela.
Os arranjos de guitarra são igualmente complicados, pois vão da lentidão melancólica ao furor ágil. Não por acaso “Cowgirl in the Sand” é a canção que melhor apresenta os dotes virtuosos do canadense na guitarra.
Todavia, a magia da faixa de encerramento é apenas fragmento de um artista que é tão complexo como suas letras.
As poucas palavras e ‘os pecados cometidos’ dizem muito. Os caminhos dessa mulher são um tanto controversos, mas sua mística vale um clássico. Assim como Neil Young.
