
01 Manguebit 02 A Bola do Jogo 03 Livre Iniciativa 04 Terra Escura 05 Saldo de Aratú 06 Uma Mulher com W… Maiúsculo 07 Homero, o Junkie 08 Rios (Smart Dugs), Pontes & Overdrives 09 Musa da Ilha Grande 10 Cidade Estuário 11 O Rapaz do B… Preto 12 Sob o Calçamento (se Espumar é Gente)
13 Samba Esquema Noise
Gravadora: Banguela Records
Data de Lançamento: Segundo semestre de 1994
Se houvesse um protótipo de mangueboy, provavelmente Fred Zero Quatro integraria a equipe de criadores (e Chico Science seria espécie de modelo perfeito).
Segundo o líder do Mundo Livre S/A, os mangueboys emergiram da lama para conectar-se ao mundo digitalmente, lendo quadrinhos e sempre atento às informações diárias. Por essa lógica, caso fossem de Recife, Edward Snowden e Julian Assange seriam mangueboys. Bill Gates, não.
Na era pré-internet, o manguebit antecipou o perfil do jovem que comumente encontramos nas ruas de hoje: sempre conectado ao smartphone, se ligando nos gadgets e dependente da tecnologia em sua formação intelectual. Por isso, entende-se o termo manguebit – e não manguebeat, termo erroneamente usado até hoje para classificar o movimento como um nicho da música pernambucana.
Ao lado do revolucionário Da Lama ao Caos (1994), o também revolucionário Samba Esquema Noise formou a trilha sonora desses protótipos: eu, você, o garoto que compartilha informações nas redes sociais, ou mesmo o compulsório usuário do WhatsApp.
Samba Esquema Noise é o disco do jovem que tem um mundo a explorar. E encara tudo de bom humor na medida do possível. Não lamenta pelo ‘zero vírgula zero zero’ na conta corrente (“Saldo de Aratú”) e recorre aos trocadilhos mundanos (!) quando está à procura de sexo, como em “Uma Mulher com W… Maiúsculo”.
Da grande variedade de gêneros transfigurados no som do Mundo Livre S/A, o mais notável é o samba. “Livre Iniciativa” é o clamor proletário em busca do ‘trabalho novo’ e ‘uma ideia na cabeça’, hino do vagabundo malogrado, que sabe que precisa fazer diferente tanto para subir financeiramente na vida, como para sair com a garota mais bonita do bairro.
Em “O Rapaz do B… Preto”, o ‘B’ significa bonézinho. A música se refere à polícia de forma satírica, de um jeito que depois se tornaria característico da banda. ‘Isso não é só um bonézinho/É um trabalho de estética aplicada’, diz Fred, como forma de bajular o homem da lei. A alusão é ao clássico do bom-mocismo “O Homem da Gravata Florida”, do disco A Tábua de Esmeralda (1974), de Jorge Ben.
Partindo para o afoxé, “Terra Escura” parece vir diretamente de um ritual de candomblé, por conta dos cocos, do pandeiro contido ao fundo e da composição com ar de mistério aventureiro: ‘Se pudéssemos mergulhar/Nas profundezas da terra escura/Encontraríamos/O ouro brilhante’. Não me pergunte o significado dessa joia.
Por ser um disco transgressor, claro que haveria de ter rock. Também por um importante detalhe: Samba Esquema Noise foi o disco número 2 do catálogo da Banguela Records, de propriedade dos músicos dos Titãs e com produção de Carlos Eduardo Miranda. (O disco número 1 da gravadora foi a estreia dos Raimundos.)
Na busca roqueira, as guitarras de Zero Quatro são potentes quando tem de ser em “Rios (Smart Drugs), Pontes & Overdrives” e bem marejadas em “A Bola do Jogo”, cujo clima ameno de instrumentação contrasta com a letra proletária: ‘Minhas pernas são bastante fortes/Como as de todo trabalhador/Meus braços são de aço/Como os de todo operário/ Mas como já dizia um velho casca/A merda dos trabalhadores é sua alma inútil ’. E conclui, com brasa: ‘A alma de um trabalhador é como um carro velho/Só dá trabalho’.
A forma com que o Mundo Livre S/A mune suas composições dá a impressão de uma banda eclética. O tempo comprovaria, apesar dos clichês relacionados ao ecletismo, pois tal direção gerou discos frutíferos como Guentando a Ôia (1996) e Por Pouco (um dos melhores discos de toda a década de 2000).
Apesar da banda ter sido criada em 1984, até que o Mundo Livre S/A teve boas condições para gravar Samba Esquema Noise. Com toda a disposição do budget da Warner, que estava por trás da Banguela, a banda gastou mais de 600 horas para finalizar o disco, que teve participações de percussionistas do Nação Zumbi; o vocalista do Ira!, Nasi, em “Homero, o Junkie”; o trio Paulo Miklos, Nando Reis e Charles Gavin (dos Titãs), além de músicos do NZ, em “Sob o Calçamento (Se Espumar é Gente); a cantora Syoung em “Livre Iniciativa”; e teve até participação da atriz Mallu Mader, em “Musa da Ilha Grande”, até hoje um dos principais hits da banda pernambucana.
Da concepção de manguebit, o Mundo Livre S/A criou o som certo para o que, naquela época, era visto como utopia futurística. O mundo não mudou socialmente; temos os mesmos pensamentos retrógrados de outrora e os mesmos vícios (a banda tanto sabia disso, que fez questão de enfatizá-los nas composições).
Por outro lado, nos beneficiamos (ou dependemos?) tanto da tecnologia, que Samba Esquema Noise poderia ser encarado como óbvia reação perante o que ainda não estava previsto pelo establishment.
Vinte anos depois, Samba Esquema Noise está limpo de qualquer prisão ao tempo. Deixou de ser futurista para ser extemporâneo – sem precisar fazer qualquer menção científica, tecnológica ou distópica em seu discurso.
