01 Nanã 02 Bluishmen 03 Luanne 04 Astral Whine (An Elegy to Any War) 05 Mother Iracema 06 Kermis 07 April Child

08 The Mirror’s Mirror

Gravadora: Blue Note
Data de Lançamento: outubro de 1972

Moacir Santos foi um dos maiores gênios da música brasileira. O trabalho mais relacionado à sua carreira é o revolucionário Coisas (1965), com faixas numeradas que davam aos arranjos de ritmos populares caráter de clássico. Isso o estabeleceu como nosso Mozart, influenciando toda a música popular feita em nosso país.

Ele foi tutelado pelo lendário Radamés Gnatalli e serviu como grandioso professor para nomes como Paulo Moura, Eumir Deodato, Nara Leão e Airto Moreira, só para citar alguns. Também gravou com Vinicius de Moraes, deu boas dicas a Baden Powell e foi citado como grande mestre por Tom Jobim.

No entanto, em pouco tempo Moacir Santos viu uma oportunidade de ensinar música no exterior e foi morar nos Estados Unidos, por volta de 1967 – se ausentando de um dos momentos artísticos mais interessantes aqui no Brasil: a Tropicália e a revolução da música popular brasileira de forma praticamente irremediável.

Somente depois de um certo tempo Moacir foi reconhecido por sua genialidade lá fora. A descoberta ficou por conta do pianista Horace Silver, que o conheceu na casa de Sergio Mendes. Esse foi um importante acontecimento para que ele gravasse seu primeiro álbum pela Blue Note, responsável por um dos melhores catálogos de jazz naquele tempo.

O primeiro desses registros foi The Maestro. Com uma banda composta por 11 integrantes, o disco faz grande uso de percussões em arranjos densos que, além de reprocessarem a estética de um disco como Coisas, exibem uma confluência natural dos hibridismos da música popular brasileira dentro das possibilidades de inovação no terreno jazzístico.

Uma canção como “Bluishmen” traz solos no sax barítono de Moacir que encontrariam espaço num terreno avant-garde. Mas a tensão construída pelas primeiras notas do piano de Hymie Lewak, em meio a uma climatização esparsa que remonta aos trabalhos mais melodramáticos de Hermeto Pascoal, transformam a faixa em uma bela obra de apreciação. Os requintes estéticos são diferentes entre si, mas a forma de manuseá-los e estruturá-los como canção é apenas uma amostra do dom de Moacir.

The Maestro começa com sua já clássica “Nanã”, onde o compositor faz uma breve apresentação como se tivesse num show intimista. Ele revela que a inspiração vem de uma ‘meditação’: ‘como em um sonho, numa visão, Nanã veio’. Dentre as muitas versões dessa música, vale destacar a bonita versão do Quarteto em Cy. Mas, aqui, Moacir optou por cantar em inglês, em parceria com Shiela Wilkinson, talvez em busca de ampliar sua audiência.

“Luanne”, também cantada, traz de volta o samba-bossa tão típico de Rio de Janeiro (vale lembrar que o músico não era de lá, mas sim do interior do Pernambuco). “April Child” também resgata um pouco dessas influências, mas apenas reforça uma necessidade de acenar para o que ocorria nessas terras.

São em viajeiras instrumentais como “Mother Iracema” e “Kermis” que percebemos que a química Moacir Santos pode, em pouco tempo, ir de Thelonious Monk a Pixinguinha – dois artistas que, direta e indiretamente, formam uma espécie de ponte definidora da música de The Maestro. Ele empunha seu barítono para navegar em profundezas e puxar o dinamismo para a entrada excepcional do piano elétrico de Bill Henderson e as notas definidoras da flauta de Don Menza (que aqui também toca sax tenor).

Mais experimental, “The Mirror’s Mirror” é contornada por um contrabaixo tenso de John Heard. Parece que o músico está numa experiência sci-fi, a fim de descobrir novas possibilidades musicais. A estrutura vai de encontro com o que Miles Davis testou em In A Silent Way (1969), mas logo percebemos uma espécie de esqueleto do baião. Aí, dá até pra dançar.

Apesar de muito mencionado na discografia de Moacir Santos, The Maestro foi apenas lançado no estrangeiro e, atualmente, está fora de catálogo. Uma grande pena saber que, no próprio país, não podemos ter livre acesso ao material de um de nossos compositores mais geniais.

É nessas horas que disparo: ainda bem que temos a internet…