Gravadora: Sony
Data de Lançamento: 17 de novembro de 1971

Quando se fala da fase elétrica de Miles Davis, sempre se pensa de imediato nos discos In A Silent Way e Bitches Brew, ambos gravados entre 1968 e 1969 (e lançados nos respectivos anos posteriores). Mas esta fase é bem mais abrangente: se tomarmos como ponto de partida que ela se iniciou com a inserção de instrumentos mais ‘eletrizados’, então temos que voltar lá pra 1967, ano em que Miles Davis entrou em estúdio e gravou Miles in the Sky com o primeiro piano elétrico em jazz, tocado por ninguém menos que Herbie Hancock. No ano seguinte, Filles de Kilimanjaro veio para consolidar que Miles estava no caminho certo.

Aliás, Miles in the Sky foi o último disco com o segundo grande quinteto de Miles (com Wayne Shorter, Herbie Hancock, Tony Williams e Ron Carter), que certamente podou as primeiras sonoridades para que o trompetista chegasse a sua fase elétrica.

A partir daí surgiu algo novo. Bitches Brew revolucionou tudo, disso não resta dúvidas, mas o desenvolvimento de toda essa carga elétrica do fusion jazz veio com discos posteriores. E é aí que Live-Evil entra.

Live-Evil: fusion em nova fase

Gravado entre as sessões de Bitches Brew e o também excelente A Tribute to Jack Johnson, Live-Evil é notoriamente pautado pela funk music e pelo R&B, com linhas de baixo viscerais de Michael Henderson, sem falar na repulsão estética nos órgãos e pianos elétricos de Keith Jarrett e Herbie Hancock em algumas faixas.

Este disco foi catalisado em duas sessões: a primeira no The Cellar Door, em Washington D.C.; e a outra, foi gravada em um estúdio da Columbia com músicos diferentes.

De início, Miles queria fazer algo que complementasse a ideia de Bitches Brew, mas percebeu que estava explorando outros campos.

O saxofonista Gary Bartz aparece quase que como um inimigo de Miles em seus solos virtuosos na flauta em “What I Say”, um dos grandes pontos altos do disco. Jack DeJohnette soa como um John ‘Bonzo’ Bonham no mundo do jazz com batidas e viradas excepcionais, ao mesmo tempo em que o percussionista brasileiro Airto Moreira nivela referências latinas com instrumentos esquisitos.

Miles Davis e Hermeto Pascoal

Falando de Brasil, quem também participa de Live-Evil é o músico Hermeto Pascoal, que tenta estabelecer a calma em um ambiente que simula a injúria e a intermitência. As composições “Little Church”, “Nem Um Talvez” e “Selim”, todas de Hermeto, são parte de um rio afluente que vem para banhar todos os ouvintes depois de pancadas como “Sivad” e “Medley: Gemini/Double Image”, levadas pela guitarra roqueira de John McLaughlin em um estranho diálogo com a cuíca de Airto.

Além do nome, o contraponto de Live-Evil também é estampado nas capas: a frontal mostra uma mulher negra que representa a fertilidade. Na contracapa, Miles sugeriu a representação de um diabo, e o ilustrador Mati Klarwein desenhou um cartoon de J. Edgar Hoover para representá-lo – Hoover foi o primeiro diretor do FBI.

No primeiro disco, o grande destaque fica por conta de “What I Say”, uma sessão laboratorial de barulhos e efeitos nos pianos elétricos que dialoga bastante com “Shhh… Peaceful”, de In A Silent Way, e explora as ponderações percussivas de forma mais experimental. Em 21 minutos de canção, vemos Miles silenciar a banda em momentos que entra com solos espaçosos, e até puxar um groove funkeiro após a apresentação visceral de Bartz no sax.

Inamorata and Narration”, do segundo disco, é mais anárquica e impulsivamente libertina. Miles Davis empunha um trompete com efeitos wha-whas de modo consistente, formando vigas do fusion-jazz com pulsações extremas. Ou seja, ele tem o poder de controlar toda a profusão sonora que extrai de seu instrumento. DeJohnette mais uma vez prova que é um baterista monstruoso, e Gary Bartz traz referências da música oriental com o sax soprano que fazem com que 26 minutos de faixa sejam muito breves. Para encerrar, Conrad Roberts recita um poema que questiona o poder da música no interior do ser humano. Sinistro.

Entre naturezas calmas e violentas, Live-Evil é um disco libertino e veloz. Todos os músicos entram numa estranha sintonia a partir de suas incursões pessoais, mas o trompete de Miles Davis, em qualquer uma das faixas, é autoritário. Ele quem ordena tudo, e nossos ouvidos não querem fazer outra coisa senão obedecer.

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