Gravadora: Stones Throw
Data de Lançamento: 23 de março de 2004

Pode não parecer, mas a junção de MF DOOM e Madlib para o disco Madvillainy, que se tornou a obra-prima da dupla, é mais convencional do que se parece. Basta olhá-lo sob uma perspectiva mais abrangente.

Antes de tudo, MF DOOM não se considerava bem um rapper. Pelo menos, não após a dissolução do grupo K.M.D., em 1993, ano em que seu irmão, Subroc, também integrante, morreu. Naquela época, ele utilizava como assinatura Zev Love X.

Sua pegada era rimar como forma de interpretar o mundo, não para se integrar a um movimento. Imagine o impacto dessa decisão no meio dos anos 1990, quando estourava um dos períodos mais frutíferos do gênero?

Tocando pelas ruas perdidas de Manhattan, Daniel Dumile, seu nome verdadeiro, passou a experimentar novas sonoridades e um novo estilo. Daí, surgiu a associação com o vilão Dr. Destino e o nome de MF DOOM.

O primeiro disco veio em 1999, Operation: Doomsday, um trabalho considerado tradicional demais para o que ele entregaria a seguir. Até que o encontro com o produtor Madlib, em Los Angeles, chegaria para que o rapper visse a música de forma diferente.

Mente de produtores

Por volta de 2002, MF DOOM já se identificava como um artista distinto. Do rap, ele gostava de capturar os beats. E nada de rimas muito complexas; a ideia era ter o flow na velocidade de seu pensamento, como forma de aproveitar a espontaneidade daquele momento específico. (Na verdade, ele tinha mais pé no jazz mesmo, tanto que até criou um projeto de fusion, Yesterdays New Quintet, em que tocava todos os instrumentos.)

Essa abordagem tem muito a ver com o olhar de um produtor. E, por isso, o encontro entre MF DOOM e Madlib soa mais convencional do que parece.

“Era mais natural do que você imaginava”, disse MF DOOM anos depois à revista SPIN sobre o processo de gravação. “Nós dois éramos produtores. Nós dois tínhamos o set de equipamentos que queríamos usar. E o Madlib tinha baterias e todo o tipo de maluquice à disposição”.

Na verdade, Madlib não poupou seu repertório de batidas e fitas para as sessões do disco. Para se ter uma ideia, eram mais de 50, algumas delas com pouco mais de 2 minutos de duração. MF DOOM ouvia e, caso o impacto viesse, surgia uma rima. E uma gravação.

Eram batidas tão boas, que não havia necessidade de qualquer tipo de edição por parte do cantor. Um exemplo disso foi “America’s Most Blunted”, que conta com o próprio Madlib colaborando nos vocais (ele assina como Quasimoto como MC). Entre scratches e uma batida funky acelerada a ponto de ser irreconhecível, a música faz do borrão um opus, e finaliza associando marijuana à criatividade.

Por mais que tenha estampada a máscara de mau e seja ovacionado como uma obra cult, Madvillainy foi gravado a toque de muita maconha, cerveja e comida tailandesa. Tudo isso por conta de uma admiração mútua que acabou evoluindo para o total magnetismo que se ouve no disco.

A gravadora de MF DOOM, Stones Throw, estava louca para fazê-lo gravar rap novamente. Em um dado momento, Madlib foi até Los Angeles e, conversando com um repórter, disse que, se pudesse escolher dois produtores para gravar, escolheria J Dilla e MF DOOM.

Eothen “Egon” Alapatt, gerente-geral da Stones Throw, tratou de mexer os pauzinhos para essa parceria acontecer. Por intermédio de um amigo, ele conseguiu algumas batidas de Madlib e enviou para DOOM. Ele adorou e, mesmo sem ter muita grana, a gravadora o enviou para Los Angeles. Pela aproximação musical, DOOM caracterizou sua persona com um misto de bom humor e obscuridade, que adquiriu contornos misteriosos junto às batidas e à produção sinistra de Madlib.

‘Contribuição’ do Brasil

É bem conhecida a história de como o Brasil influenciou o processo de Madvillainy. Foi bem no começo das gravações, por sinal. Em 2002, Madlib veio ao país a convite da Red Bull Academy e aproveitou para conhecer algumas lojas que vendiam discos.

Com seu kit de gravação, começou a experimentar junções com algumas pérolas brasileiras. Vem da música “América Latina”, de Osmar Milito e Quarteto Forma, a melodia de “Raid”, com um tipo de aceleração que nem parece comprometer sua organicidade.

“Strange Ways” também foi gravada nessa passagem em São Paulo, assim como uma das grane pérolas de Madvillainy: “Rhinestone Cowboy”, que encerra o disco pegando fragmentos de arranjos de duas pérolas de Maria Bethânia (“Mariana Mariana”, de 1971, e “Molambo”, de 1968).

Se por um lado o Brasil ajudou a inspirar um dos discos mais fora da curva do rap, por outro trouxe um desfecho abrupto à sintonia da dupla. Pouco antes de sair do país, alguém teve acesso às fitas da demo de Madlib e disponibilizou na internet de graça – em um momento em que streaming estava longe de existir.

Por conta disso, Madvillainy só foi lançado em 2004, mais de um ano depois, e tanto MF DOOM quanto Madlib partiram para seus projetos solo.

Madvillainy e a consolidação do rap alternativo

Ainda antes de lançar o disco, MF DOOM chegou a regravar algumas vozes. “Na versão original, DOOM rimou com uma voz bem mais entusiástica”, disse à Pitchfork Peanut Butter Wolf, dono da Stones Throw. “Depois, ele decidiu seguir uma linha mais melódica, relaxada, confidente, com um tom menos abrasivo. Acho que ele fez isso para diferenciar dos outros projetos que estava lançando”.

Quando lançou o primeiro compacto, “Money Folder/America’s Most Blunted”, parte da crítica especializada ficou atenta ao que estava por vir. Numa época em que JAY Z e Eminem dominavam o mainstream do rap, uma nova abordagem para o gênero caía como uma luva para a turma cult.

O começo dos anos 2000 foi vital para a consolidação do rap alternativo, com ótimas pedradas de Aesop Rock, Cannibal Ox e a parceria entre Mos Def e Talib Kweli, com Black Star.

Porém, foi Madvillainy o disco responsável por uma distinção estética muito clara entre o underground e o mainstream.

“Para muitos de nós, [as letras de Madvillainy] são disparates, mas DOOM e Madlib tiveram sucesso em traduzir a elevada sensibilidade física e a facilidade associativa da mente chapada em música concreta”, escreveu um crítico da New Yorker na época.

Pelo disco, pudemos perceber a potência de criatividade ao vislumbrar duas mentes musicais capazes de fazer música com qualquer tipo de som, praticamente simulando a velocidade do pensamento. As condições favoreceram a materialização de Madvillainy, um disco que se opõe à meticulosidade. Nem tudo precisa se encaixar pra fazer sentido.