
01 Ebony Queen 02 A Prayer For My Family 03 Valley of Life 04 Rebirth
05 Sahara
Gravadora: Milestone
Data de Lançamento: Janeiro de 1972
Um dos principais membros do lendário quarteto de John Coltrane, McCoy Tyner pode hoje ser considerado o maior pianista de jazz vivo. Numa rápida análise, é difícil pensar em algum nome superior a ele no gênero que não seja Duke Ellington, Dave Brubeck ou Thelonious Monk (vale lembrar que McCoy Tyner foi mencionado no nosso podcast sobre 10 grandes pianistas de jazz).
Passeando tranquilamente das linhas blueseiras ao mais insano do avant-garde, McCoy Tyner sabe como ninguém dosar ira e melancolia alternando naturalmente a velocidade com que busca as notas de seu instrumento.
Seu grande salto artístico foi ter integrado o grupo de Coltrane, com quem tocou até 1965 (é dele o piano dos clássicos Impressions, de 1963, e A Love Supreme, de 1964). Depois, Tyner partiu para suas primeiras experiências como bandleader, cujo destaque da primeira fase é The Real McCoy (1967).
Seria na década seguinte que o pianista encontraria melhor direção musical. Mais especificamente neste Sahara, de 1972.
Primeiro disco do jazzista com a gravadora Milestone, Sahara mostrou uma percepção megalomaníaca das possibilidades musicais africanas. Sua agressividade no piano veio como forma de preencher a aridez do continente.
Para conceber o disco, o jazzista reformulou sua banda, o que parecia ser algo bem arriscado. No lugar de renomados instrumentistas como Wayne Shorter (sax tenor), Ron Carter (baixo), Gary Bartz (sax alto) e Elvin Jones (baterista), McCoy quis estabelecer uma espécie de renovação. Faz todo o sentido: afinal, as direções musicais já estavam em sua cabeça quando ele chamou para tocar em Sahara os seguintes músicos: Sonny Fortune (sax e flauta, que já havia tocado com George Benson), o baixista Calvin Hill (que também tocou percussão no disco) e o baterista Alphonse Mouzon, que já havia feito renome no fusion-jazz no disco de estreia do Weather Report.
Quem já ouviu o grandioso Africa/Brass (1961), de Coltrane, facilmente irá estabelecer paralelos com esta obra. Naquele disco, Tyner havia afiado sua agilidade como parte das nuances que o saxofonista estava explorando em sua banda. Faixas como “Africa” e “Song of the Underground Railroad” continham o espírito bebop que habitavam na técnica de Tyner.
Em Sahara, essa habilidade está inserida em um contexto menos híbrido e mais conceitual. As linhas excepcionais de “A Prayer For a Family” são de impressionar qualquer audiência de música de câmara. Mas elas estão ali como um lamúrio urgente. É como se o pianista incorporasse as preces de quem sofre com a escassez.
“Ebony Queen” abre o disco com um staccato dinâmico que dá acidez ao que Dave Brubeck já havia suposto com sua banda. O sax de Fortune vira e mexe puxa notas longuíssimas, formando a cortina perfeita para as viradas na bateria de Alphonse. São nove minutos de tensão sem pausa que dão uma nova margem para o que se convém chamar de hard-bop (eternamente associado a Coltrane).
Em “Valley of Life”, Tyner deixa o piano de lado e assume o koto, uma espécie de cítara gigante bem popular na música japonesa. A inserção de flautas e pratos de bateria dão um aspecto oriental, como se a África de repente fosse de encontro à Índia. É a mais experimental do disco.
“Rebirth” é uma explosão calcada em notas estratosféricas de baixo, piano e bateria. A virtuose de cada um está iminente na peça, mas o que mais impressiona é a sinergia: parece que todos iniciaram uma competição e correm ao mesmo lado, em velocidades iguais.
Com mais de 23 minutos, a faixa-título é a mais sintomática do disco. Há uma ambientação perene de interlúdio, como se o clima e a ventania influenciassem diretamente nos rumos musicais que estão por vir. Quando Tyner põe a mão no piano a partir de 1 minuto e meio, prepare-se para o deleite: o músico nos brinda com um de seus melhores solos no piano. Ele alterna sabiamente a velocidade, indo do ágil demais ao não-tão-rápido assim em questão de milésimos. Qualquer artista de avant-garde que se depara com um solo desses tem vontade de chamá-lo para fazer parte de sua banda (e por falar em solos, o que é aquilo que Fortune faz em torno dos 7 minutos da faixa?!?).
Feroz e direto, irascível e meteórico, Sahara é até hoje considerada a obra-prima da carreira solo de McCoy Tyner. Se realmente existe algum paralelo com Africa/Brass, digamos que a proposta foi levada a um extremo que talvez não fosse possível com Coltrane. É o piano de Tyner que ordena aqui. E, para isso, ele precisava de espaço para manter o controle de sua própria obra – algo que faz com irrefutável maestria neste disco que permanece essencial para qualquer fã de jazz.
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Atenção: nos dias 1º, 2 e 4 de agosto, o pianista McCoy Tyner se apresenta no Sesc Pompeia. Grande oportunidade de conferir ao vivo um dos maiores pianistas de jazz de todos os tempos.
