
CD 1 01 Intro 02 Boss Cat 03 The Bulls 04 Catch a Fallen Star 05 The Animal in You 06 In My Room 07 First Time 08 (Your Love is a) Lesion 09 My Former Self 10 Once Was CD 2 01 The Untouchable One/Blood Wedding 02 Black Heart 03 Medley: Narcissus, Gloomy Sunday, Vision 04 Torment 05 A Million Manias 06 My Little Book of Sorrows
07 Beat Out That Rhythm On A Drum
Gravadora: Some Bizarre
Data de Lançamento: segundo semestre de 1983
Marc Almond é daqueles músicos com tino praticamente certeiro em qualquer direção apontada. Ele tem um controle vocal que o deixa transitar facilmente da música de cabaré à música clássica. Para buscar paralelos, temos que mentalizar vozes femininas como Judy Garland ou Nico – ou, se quisermos ser mais precisos, digamos que há uma esfera habitável entre Almond, os primeiros anos de Scott Walker e o irreparável Jacques Brel.
Depois de quebrar barreiras na música eletrônica com o Soft Cell ao lado de David Ball, trilhando os primeiros passos para o techno com “Tainted Love”, Almond, que já havia conquistado grandes adeptos após levar o som de sua banda para o topo das paradas britânicas, decidiu dar andamento a um projeto paralelo. E, em 1982, nasceu o Marc and the Mambas.
Ao lado da pianista Annie Hogan, com coprodução de Flood (experiente nos assuntos pós-punk e new-wave que também trabalhou com U2 e Depeche Mode) e um time de mais de 10 músicos (incluindo Matt Johnson, do The The, nas guitarras), Torment and Toreros é o segundo e principal disco sob o nome Marc and the Mambas.
O primeiro álbum é Untitled (1982), que selou uma transição da eletrônica para uma new-wave mais obscura. Ainda assim, nesse disco encontramos certo frescor pop na faixa-título e uma dosagem dançante (ainda que estranhamente deliciosa) no single “Sleaze (Take It, Shake It)”.
Mas o trabalho mais radical deste projeto seria Torment and Toreros mesmo. Gravado no Trident Studios, lendário local que registrou outras grandes obras musicais como The White Album (Beatles) e The Rise and Fall of Ziggy Stardust… (David Bowie), o disco marcaria uma trilha mais gótica. E ainda mais obscura e tântrica que a experiência anterior.
As 17 canções divididas em vinil duplo entregam um trabalho com ares de conceitual. Nele, tortura, medo, devassidão, depressão, alienação, ira (ou ‘toda a masturbação de um tipo’, como canta em “Catch a Fallen Star”) formam um mergulho profundo de densidade.
Se você achava que Closer (1980) era o máximo que a melancolia poderia atingir na fase embrionária do pós-punk, bom, Torment and Toreros deverá ser um choque e tanto. As composições são fortes e refletem uma época sepulcral na carreira e na vida de Almond. “Eram tantas bagagens e tantos fantasmas. Nunca realmente quis estar lá”, admitiu o músico quase três décadas depois.
Com requintes de ópera e influências do flamenco e da música da Turquia, o álbum explora a densidade por meio de violinos dramáticos, solos de cello ao invés de guitarras, percussões tremeluzentes. E, talvez um dos grandes destaques, exibe uma sinergia de causar inveja entre o canto de Marc e o piano/órgão de Annie. O maior exemplo disso é a belíssima “Black Heart”, onde a new-wave abandona a ingenuidade e se encaixa numa estrutura mais barroca. Marc exibe um controle vocal esplêndido, indo de encontro ao que Diamanda Galás faria com primor algum tempo depois. ‘Você matou todos os meus sonhos/Com o seu negro, negro coração’. O solo melódico no saxofone é um adendo que abrilhanta e muito a canção – cortesia de Steve Sherlock, que também toca flauta na canção (e foi parceiro de Matt Johnson no The The).
“The Animal In You” é a sádica trilha de ruína. Marc admite o fétido que existe em cada um de nós, humanos (‘nunca agi como um garoto’, canta). O amor cruel, que abre as ‘portas para o irreal’, poderia ser um fruto poético. Mas a sujeira de guitarras difusas e a percussão fervorosa (que depois vão de encontro com uma sonoridade meio irlandesa) revelam que esse amor pode ser sadomasoquista. Cruel metafisicamente – e fisicamente.
Ainda ensaiando algo sádico ao falar de amor, “Torment”, talvez uma das poucas canções daqui com ares de dançante (com uma dinâmica de bateria à lá New Order), é ainda mais direta nesse quesito: ‘Me bata/Me queime/E vou amá-lo mais e mais e mais e mais e maaaaisss’.
Numa estética que coloca Edith Piaf na megalomania oitentista com um quê de cabaré, “A Million Manias” retrata impulsos neuróticos, mencionando o suicídio como uma possível causa (‘bang bang shoot shoot look out look out look out!’). A faixa tem um andamento de ragtime, e o órgão de Annie parece condensar até mesmo a psicodelia. É a faixa mais híbrida do disco.
Quase todas as canções do álbum foram compostas por Marc com alguns parceiros. As exceções são “The Bulls”, do já mencionado Jacques Brel; “In My Room”, música de Joaquin Prieto que exibiu a preciosidade vocal de Scott Walker no álbum Portrait (1966), com os Walker Brothers; e a faixa de encerramento do último disco, “Beat Out That Rhythm On a Drum”, música de Bizet e Hammerstein II feita para a ópera Carmen (1875).
Quando foi lançado, Torment and Toreros não fez sucesso comercial e foi visto com frieza pela crítica musical. Hoje, o álbum é reconhecido como a melhor investida de Marc Almond.
Em 2013 completa-se 30 anos deste clássico perdido, mas esqueça qualquer turnê de retorno. Tais expectativas já foram frustradas no ano passado, quando Almond reuniu alguns músicos para recriar no palco uma vez só a experiência de tocar o álbum inteiro. O músico deixou bem claro que iria fazer isso apenas naquela noite de 14 de agosto de 2012, no Meltdown Festival, criado por ninguém menos que Antony Hegarty – o músico e líder do Antony and the Johnsons que cita Torment and Toreros como a maior influência artística de toda a sua carreira.
No entanto, é possível encontrar o DVD Three Black Nights of Little Black Bites, registro ao vivo das principais canções deste álbum no palco. Marc Almond diz que, no atual momento, recriar essas canções seria algo um tanto forçado, já que elas floresceram da dor e dos momentos difíceis que havia passado naqueles tempos. Noutras palavras, não haveria integridade alguma remoer aquilo que já foi superado.
Ao ouvir Torment and Toreros, nós entendemos. Foi um disco difícil na execução, e talvez seja difícil até para a audição. Mas, uma obra-prima é eterna. E, se você ainda não se deparou com este disco, permita-se impressionar. Não deixe uma divindade dessas incólume aos seus ouvidos.
