
01 Cockamamie 02 Black Sky
03 M
Gravadora: Charnel
Data de Lançamento: 1996
Quando você pensa em um disco barulhento, o que vem à cabeça? Psychocandy (1985), do The Jesus and Mary Chain? O charme de Loveless (1991)? Metal Machine Music (1975)?
Cada ouvinte tem a sua própria forma de associar discos barulhentos, mas, não importa quem ouvir Mainliner, uma coisa é certa: o debut Mellow Out entrará na lista dos discos mais barulhentos já deparados.
Antes de prever uma possível surdez diante de guitarras estilhaçadas em pedais de 2000W de potência, é importante saber que o Mainliner tornou-se um dos power trios mais prolíficos da cena underground japonesa, que teve início ali nos anos 1980 com grupos como Merzbow e Hanatarash.
Formado em 1995 por Asahito Nanjo (baixo/vocais), Hajime Koizumi (bateria) e o amalucado Makoto Kawabata (guitarra) – momento em que a cena já tinha bons adeptos e conquistava curiosos – o Mainliner usa pouco mais de 30 minutos de seu tempo para lhe convencer que um som barulhento pode suscitar diferentes interpretações e excitações.
Não é o barulho pelo barulho que faz de Mellow Out um rock potencial e vigoroso. É a liberdade de fecundar e distorcer a psicodelia, de injetar acidez no underground e de formar uma esfera única em que riffs, solos e microfonias se convergem que dá a essa estreia uma aura de flamejante.
E bota flamejante nisso!
Apesar das constantes menções de clássico nas rodas mais estranhas de roqueiros, Mellow Out é um disco que clama por atenção.
Depois de parte das prensagens ‘desaparecerem’ no momento em que foi lançado pela gravadora Charnel, em 1996, o álbum foi resgatado pelo selo Riot Season em formato limitado de CD e vinil, em 2003. Vendeu alguns exemplares, mas nem tanto.
A tentativa mais recente de angariar neófitos foi feita em maio do ano passado com o relançamento em vinil numa edição especial de 500 cópias, também feitas pela Riot Season. A razão era bem convincente: após quatro álbuns lançados e um hiato de 10 anos, o Mainliner voltou em 2013 com Revelation Space, mas apenas com Kawabata da formação original, já que Nanjo e Koizumi não quiseram dar continuidade ao projeto (e foram substituídos por Koji Shimura e Kawabe Taigen).
O disco é composto por três faixas: a primeira, “Cockamamie”, tem menos de dois minutos para te cooptar às máximas distorções.
Você imagina que aquela sonoridade poderia ser fruto de uma má reprodução de estúdio – ou em algum carro qualquer com grande sonzeira e parca qualidade. No entanto, quando os dedilhados de Nanjo e Kawabata trituram os ouvidos, fica perceptível de que muita fuzarca virá por aí.
“Black Sky”, todavia, quebra qualquer expectativa ou mau presságio. Depois de te colocar nessa atmosfera, o Mainliner apresenta o ritmo, ainda que sob riffs catastróficos.
A voz de Nanjo tem um quê de vaidade, por mais que seja praticamente ininteligível. Quando ela não se faz presente, Kawabata e Koizumi arrebentam em solos no melhor exemplo que poderíamos ter de free-rock, onde guitarras entram no lugar de metais intrépidos e explodem a ponto de deixar o ouvinte atento a quais notas serão alcançadas nos milésimos de segundos após a reprodução no player.
A última faixa, “M”, é mais rítmica que a anterior, estabelecendo uma ponte entre o noisy e a psicodelia. Ecos de um Jimi Hendrix furioso pairam por ali, como se ele tivesse ressurgido do inferno tão em chamas quanto sua famosa Fender Statocraster.
O barulho não dissipa, tampouco diminui quando o ouvinte se depara com “M”. Os amplificadores estão ali para potencializar a proposta libertadora do Mainliner e, quando se passa a meia hora de audição, todo o senso estético de barulho ganha um significado mais expressivo e catártico.
Ah, uma pequena nota: não vou dizer para ouvir alto, ou posso ser o culpado caso sua audição seja comprometida. Digo, apenas: OUÇA!
