Gravadora: EMI
Data de Lançamento: 16 de setembro de 1985
As vendas de The Dreaming (1982) não foram bem. Primeiro disco com produção de Kate Bush (e o 4º de sua carreira), era experimental demais para a cantora soprano que havia demarcado novas possibilidades na música pop, por mais excêntrica que fosse.
Esvair as características de sua obra não estava nas ressalvas da britânica, então ela parou por um tempo e decidiu tomar as rédeas de tudo.
Nada de intermediários; ela criou um estúdio em sua própria casa e passou a experimentar sonoridades com o caríssimo (pelo menos, na época) sintetizador Fairlight CMI. Podia haver pressão por parte da gravadora EMI, mas ela sabia que precisava fazer algo diferente para que entrasse novamente nas paradas Billboard.
Decidiu, então, que deveria dar singles. Por isso mesmo, preparou logo três – mas três singles tão potentes, que não desgrudariam mais da cabeça dos fãs. Foi o caso da primeira faixa, “Running Up That Hill”, com slides entremeados aos riffs flamejantes das guitarras de Alan Murphy. Logo em seguida, a faixa-título: os arcos do cello de Jonathan Williams pedem firme impulsão do notável soprano da cantora, que controla interjeições e curtas explosões vocais.
“The Big Sky” marcou a ponte pop que cantoras como Madonna e Florence + The Machine certamente aproveitariam. O estranho clipe, dirigido pela própria Bush, mostra a cantora interagindo com diversos arquétipos cinematográficos do sci-fi, tão em voga nos anos 1980. Nunca avant-garde e Star Wars tiveram proximidade tão estreita quanto neste clipe, que chegou a ser indicado no VMA da MTV, em 1987 (perdeu para “Papa Don’t Preach”, de Madonna).

Hounds of Love: pop + experimental
Todos estes singles fazem parte do primeiro lado de Hounds of Love. Essa linha pop quase camerística também adorna as seguintes “Mother Stands For Comfort” – com instrumentos improvisados, palmas e estranhas percussões – e “Cloudbusting”, outra de suas verves avant-garde. Nesta canção, Kate Bush inicia sob corais e violoncelos tácitos a história do relacionamento entre o filósofo e psicólogo Wilhelm Reich com seu filho mais novo, Peter. A instrumentação segue um crescendo que acompanha a fricção do pequeno enredo. ‘Você está aqui na minha cabeça/Como o sol se levantando/Oh, eu só sei que alguma coisa boa está para acontecer‘, canta Bush, como se fosse um Peter mais velho, que relembra quando o pai foi preso pelo governo norte-americano.
A melancólica balada ao piano “And Dream of Sheep” dá início ao lado mais torto do disco, intitulado The Ninth Wave. Os efeitos vocais de “Under Ice” denotam uma mudança de tempo, com claro objetivo de tornar a sonoridade mais obscura. Parece um acesso de bipolaridade, mas o que se contempla é o desenvolvimento criativo de uma Kate Bush que não apagou The Dreaming da memória.
Nesse sentido, “Waking the Witch” é a principal apoteose: os sintetizadores sequenciais inserem Kate num cenário de terror muito familiar aos filmes de Dario Argento. De fato, a canção é uma colagem cinematográfica: a batalha entre a vida (Eros) e a morte (Thanatos) é sonorizada, enquanto personagens se afogam e ouvimos até um helicóptero na tentativa resgatá-los.
Kate Bush: afeição ao ‘terror’
As demais canções do segundo lado são ainda mais substanciais, ainda que não deem um choque tão sintomático quanto “Waking the Witch”. “Watching You Without Me”, por exemplo, apoia-se muito bem no baixo duplo de Danny Thompson, com experimentações vocais do Fairlight. A sonoridade árabe de “Jig of Life” esconde uma composição complexa sobre o tempo e lembranças da infância: ‘Esperando nesse mundo vazio/Esperando pelo ‘Então’, quando as orações pela vida esfriam/Porque o ‘Agora’ passa pelo tubo da onda‘.
“Hello Earth” é mais uma das afeições de Kate Bush por filmes de terror – desta vez, ela presta homenagem ao clássico Nosferatu, recriando um cântico que marcou o expressionismo alemão no cinema. Não é, em si, uma faixa de horror: pelo contrário, Kate parece seguir uma luz divina, uma procura religiosa a partir da superposição de fontes estrangeiras, técnica também utilizada pelo compositor de vanguarda Karlheinz Stockhausen.
Ao longo dos anos, Kate Bush passou a ser celebrada em círculos mais fechados, ainda que tivesse lançado discos que certamente influenciariam o pop como um todo – como The Sensual World (1989) e Aerial (2005). Foi com Hounds of Love, porém, que a britânica não apenas reprocessou com mais firmeza o que verdadeiramente queria trazer para sua música, como abriu diversos caminhos para experimentações com a eletrônica e com o pop artístico. Prova cabal é que, até hoje, este permanece como seu álbum mais bem-sucedido, com mais de 1 milhão de cópias vendidas pelo mundo.
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