01 Greensleeves 02 Song of the Underground Railroad 03 The Damned Don’t Cry

04 Africa

Gravadora: Impulse!
Data de Lançamento: 23 de maio de 1961

Todos conhecem John Coltrane como um dos maiores solistas de jazz de todos os tempos. Mas o que se fala pouco é de sua inquietação para experimentar novas possibilidades dentro do gênero, por mais estranhas que elas possam parecer. Ele estava lá na histórica sessão de Kind of Blue, de Miles Davis, mas também pretendeu seguir novos caminhos ao assumir o sax soprano (ele, largamente conhecido como um tenorista) em dois discos que lhe renderam sucesso imediato: Giant Steps e My Favorite Things.

Em 1961, Coltrane fechou um contrato com a nova gravadora Impulse! – cria da gigante Atlantic, chefiada por Creed Taylor – para gravar três discos. Foi lá que o saxofonista quis explorar sua inventividade.

Africa/Brass foi o primeiro teste para Coltrane. Naquela época, Kind of Blue havia estabelecido uma nova regra para o mercado fonográfico de jazz: a de que um grupo poderia ser consistido por menos integrantes – cinco ou seis -, para explorar melhor as camadas sonoras através de solos dos instrumentistas. Sem falar que era bem melhor pagar royalties a um número menor de músicos, pelos motivos óbvios.

Coltrane não quis nem saber: chamou uma horda de músicos habilidosos (21 no total) para que dessem suporte a uma sonoridade mais encorpada, que mesclasse um som de orquestração com a virtuosidade do músico nos solos de sopro. (Por mais que a capa estampe The John Coltrane Quartet, este foi o registro em que o saxofonista mais chamou músicos para tocar em um disco.)

Estavam lá os gigantes Booker Little (trompete), Pat Patrick (sax barítono), Paul Chambers (contrabaixo), Julian Priester (que tocou eufônio, uma espécie de tuba rara que é confundido com barítono), Freddie Hubbard (trompete), Elvin Jones (excelente baterista, vide “Africa”) e muitos outros.

Era um risco: afinal, o músico poderia ‘engolir’ os demais instrumentistas ou a roupagem sonora poderia soar anárquica e bagunçada. Não era bem um terreno de Coltrane.

Aqui, é bom dar os devidos créditos para quem soube oferecer o suporte devido para Coltrane. E o maior deles deve ser destinado ao excelente pianista McCoy Tynner, que estabeleceu uma dinâmica musical que vão de baladas (“The Damned Don’t Cry”) aos surtos controlados de “Africa”, canção onde se percebe a fluência quase esquizofrênica que foi explorada de forma abusiva em Ascension, um dos discos de jazz mais experimentais de todos os tempos.

Para trabalhar os arranjos, inicialmente Coltrane havia convidado Gil Evans. No entanto, o maestro demorou para responder e Coltrane chamou Tyner e o saxofonista Eric Dolphy, que conhecia muito bem a arte do bebop. Provavelmente, deva ter sido a melhor escolha para que, nos anos seguintes, Coltrane e Tyner seguissem um caminho quase ininterrupto de experimentações graças à solidez contígua de suas notas.

O grande mérito de Africa/Brass é trabalhar um novo conceito de big bands. Como bem disse o jornalista Nick Deriso, um disco de jazz com todos esses integrantes deixou de ser um remendo separado de diversos solos instrumentais para focar em detalhes de improvisação.

Tão bonito como qualquer outro registro de Coltrane, Africa/Brass é mais um disco de nuances do que de impacto. Pois é, ele também sabia trabalhar essa habilidade.