01 Prezadíssimos Ouvintes 02 Ideia Fixa 03 Navalha na Liga 04 Movido a Água 05 Desapareça Eunice 06 Tete Tentei 07 Vamos Nessa 08 Eldorado 09 Sampa Midnight 10 Isso Não Vai Ficar Assim 11 Z da Questão, Meu Amor 12 Totalmente à Revelia 13 Cadê Inês 14 Chavão Abre Porta Grande

15 E o Quico

Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 1986

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Existe uma grande diferença dos paradigmas do underground hoje e há 30 anos atrás, mesmo em uma cidade cosmopolita como São Paulo. A resolução óbvia é que temos a internet, mas não podemos esquecer que este é um meio como foi a TV ou o rádio décadas atrás. Um material disponível não quer dizer ‘basta o público caçar’. Ora, se assim fosse, bastaria que o público ‘caçasse’ o que rolava nos porões da cena musical dos anos 1980, não?

Algumas discussões acerca do tema público x mainstream x underground no contexto nacional têm surgido (inclusive o Na Mira deu seus pitacos). Mas as dificuldades ainda são similares. E Itamar Assumpção foi um dos que mais sofreu isso na pele: ‘Pra chegar até aqui/Eu tive que ficar na fila/Aguentar tranco na esquina/E por cima lotação’, relata em “Prezadíssimos Ouvintes”, faixa que abre seu terceiro álbum, Sampa Midnight: Isso Não Vai Ficar Assim.

Dos seus registros independentes, Sampa Midnight é o álbum que deixa evidente a procura do músico pela aceitação. Apesar de ser caracterizado como difícil e ‘maldito’, Itamar sabia que a qualidade de sua música deveria ser melhor apreciada.

Para a crítica especializada, ele não ligava. Era a ampliação do público que Itamar procurava. Parece algo satírico quando ele diz: ‘Tentei samba em Ipanema/Tentei desdobrar esquinas/Tentei a mais linda cena/Tentei fugir do esquema’, em “Tete Tentei”, ligando paisagens que remetem a movimentos musicais. ‘Tentei mais do que imaginas (…)/Depois disso só me restou estar aqui tentando mímicas’.

Com o mesmo método de composição por meio de partituras de baixo, Itamar Assumpção tem à disposição a banda Isca de Polícia, ainda melhor apurada na cozinha que condensa do samba de Ataulfo Alves às experimentações estéticas da fase On the Corner, de Miles Davis. Como pontuação instrumental, o baixo é fortemente sentido em “Ideia Fixa” e “Totalmente à Revelia”. Em “Vamos Nessa”, é o instrumento que norteia uma trama de suspense que leva o ouvinte ao indefinido (‘não tem luz/não tem cheiro’).

De fato, Sampa Midnight reúne diversas procuras. Uma procura principalmente antropológica, que se materializa de formas mundanas, quase engraçadas. Quando Itamar evoca o reggae para cantar “Movido a Água”, pede para o cidadão parar um pouquinho, apertar o breque. Ele cita a possibilidade de o homem querer aproveitar a água para usar como combustível, a exemplo do uso do petróleo, um bem natural, para consumo desenfreado. Itamar aponta a resolução: ‘Um carro pra sempre/Movido à bosta de gente’.

O antropológico também é estético na música deste disco. A multidão paulistana é simulada nos vocais apressados de “Desapareça Eunice” e nos backings do próprio cantor como acompanhamento em “Z da Questão, Meu Amor”, que deveria ser uma música confessional. O cenário, as ‘reclamações de todo mundo’ e o desespero inerente à cidade que não dorme são quase onipresentes no álbum. Não que o cantor procurasse retratar a época com verossimilhança em prol de uma estética pronta. O que Sampa Midnight nos oferece é uma visão particular da cidade que não teve pena de manter Itamar nos porões do underground musical.

O músico responde às esquisitices da cidade com um misto de voracidade e bom-humor. Na já citada “Vamos Nessa”, ele encara a aventura sombria como se fosse um integrante da trupe de Alex DeLarge, de Laranja Mecânica. Na faixa-título, porém, ele encara o breu da avenida Paulista até se deparar com três seres ‘transparentes baixaram não sei de onde, gritando: não somos gente!’. Poderiam ser três ETs, mas como confiar na descrição imagética da embriaguez do personagem?

Da antropologia, da procura e do quase esquecimento retratado de forma brilhantemente multifacetada em Sampa Midnight, o melhor está no final. Em “E o Quico?”, todas essas questões são reformuladas e intensificadas. Também serve como bate-pronto para o próprio Itamar, uma espécie de autocrítica de sua relevância artística. Ao dizer ‘e o quico?’, o músico se comporta como plateia, se põe no lugar dela diante da própria arte que faz.

Mas não é só isso.

De aspecto totalmente teatral – fruto das apresentações no Lira Paulistana, que ficava em Pinheiros – “E o Quico?” reúne violões e guitarras em balbúrdia com as ideias ufológicas (lembra fácil alguns resquícios de Sun Ra nos metais) e toda a caretice mimada que caracteriza até hoje a elite paulistana. Há buchichos e fricções de guitarra na aventura de um rapaz ‘triste, sozinho, desnorteado, cabreiro, besta’. A questão existencial de sua vida, bem mostrada no documentário Daquele Instante em Diante, ganha contornos irônicos. Ele cita dança e Paris como parte de sua bagagem cultural, até que entra um disco voador (talvez o mesmo de “Sampa Midnight”) e vem a voz: ‘E o quico? E o quico?’.

A quem interessaria o que Itamar Assumpção fez? O que isso mudou? Por que o renegamos? Por que ele mereceria atenção? Se o disco Sampa Midnight não der alguma sugestão, bom, eu não tenho nada a ver com isso.