01 Like Rats 02 Christbait Rising 03 Pulp 04 Dream Long Dead 05 Head Dirt 06 Devastator 07 Mighty Trust Krusher 08 Life Is Easy 09 Streetcleaner 10 Locust Furnace 11 Tiny Tears (bonus) 12 Wound (bonus) 13 Dead Head (bonus)

14 Suction (bonus)

Gravadora: Earache/Combat
Data de Lançamento: 13 de novembro de 1989

No filme Viagens Alucinantes (1980), o cientista Eddie Jessup realiza um experimento consigo mesmo a partir de drogas lisérgicas. Ele tem visões aterrorizantes neste processo, e uma delas é a imagem da capa de Streetcleaner, onde corpos apregoados na cruz ardem cruelmente no inferno.

A imagem que a banda britânica Godflesh estampa não é bem o cenário de Streetcleaner. É mais uma comparação. Um estado de espírito que envolve sofrimento e tortura, seja ela física ou mental.

No primeiro álbum, o grupo de rock pesado faz uma espécie de varredura da difícil situação das ruas londrinas, como se estivesse juntando os restos abandonados por uma sociedade hipócrita e mostrasse como tal descaso fortalece o que convenhamos chamar de inferno – mesmo que sejam ‘infernos próprios’, como diz em “Christbait Rising” sob guitarras sanguinolentas.

Sem intenção alguma de ser thrash, Streetcleaner se enquadra mais como a pura sonoridade da exaustão humana. Os riffs são poderosos, mas estão numa marcha mais lenta, sugerindo agonia.

A agilidade da bateria pode ser encontrada em momentos como “Dream Long Dead” e na faixa-título, porém é quando ela se arrasta a ponto de quase sumir que vemos o efeito Godflesh soar mais eficaz (vide “Devastator”). Aquilo é sobrenatural, de outro mundo.

E aí entra o conceito de Streetcleaner: que ideia teríamos do sobrenatural sem o real, que também pode ser duro e aterrorizante? Afinal, ‘vida é morte’, como diz muito bem Justin Broadrick em “Life is Easy”.

Antes de formar a dupla com G. Christian Green (baixo e programações) para o Godflesh, Broadrick já havia formatado um estilo de tocar guitarra que viria a influenciar o grindcore. São dele as notas do lado A de Scum (1987), o disco do Napalm Death que colocou o gênero no jogo (o currículo de Broadrick inclui trabalhos com Pantera, Pelican e Mogwai).

No entanto, para o Godflesh o músico desacelerou o instrumento e inseriu programações de bateria e pedais, caracterizando o peso mais com a intensidade que com a rapidez, indo de encontro com a proposta do Swans – principalmente em “Mighty Trust Krusher”.

Os riffs são como chicotadas e tudo fica mais sombrio com a voz demoníaca de Broadrick (no estilo Darth Vader, como bem comparou o Chicago Tribune na época). Quer exemplo maior que “Like Rats”, onde ‘criação, estilo e deformidade’ humanas são comparáveis aos roedores numa voz que emana autoridade malévola?

A faixa de abertura de Streetcleaner resume bem o que depois foi catalogado como industrial metal: é uma curta composição, de teor arrastado, com linhas contínuas de guitarra, baterias em programação e vocais tão gritantes quanto distanciados. Tudo isso para que cada elemento soe uníssono num peso só.

No relançamento de Streetcleaner em CD, a banda incluiu quatro faixas do EP Tiny Tears, que seria recusado pela gravadora Earache no início dos anos 1990.

Com o passar dos anos, o Godflesh iria testar outras formas de corrosão sonora, desacelerando um pouco mais a sonoridade. O exemplo mais bem-sucedido pós-Streetcleaner viria com Pure (1992), mas é o debut que mantém o status de ser um dos discos mais importantes do metal de todos os tempos. Tanto que a FACT Magazine incluiu Streetcleaner no 3º lugar da lista dos melhores discos dos anos 1980, atestando veementemente: “é sem dúvidas a mais importante obra de música extrema de toda a década”.

Vide o som posterior de Korn, Metallica – principalmente pós-Load (1996) – e do Faith No More.

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A seguir ouça Streetcleaner, do Godflesh, na íntegra: