
01 Suspiria02 Witch03 Opening to the Sighs04 Sighs05 Markos06 Black Forest (Blind Concert Original Film Edit)07 Death Valzer08 Suspiria (Celesta and Bells)09 Suspiria (Narration)10 Suspiria (Intro)11 Markos
12 Suspiria (alternate version)
Gravadora: Cinevox
Data de Lançamento: 1977
Mencionar uma banda de rock progressivo italiano dos anos 1970 pode parecer um desencave forçado. Ainda mais quando o disco, em questão, é uma trilha sonora.
A história não é tão interessante; o disco, por outro lado, é uma teia de mistérios que vai muito além da obra do consagrado diretor Dario Argento.
Antes de chegar ao nome Goblin, os italianos Claudio Simonetti (piano, teclados, órgão), Massimo Morante (guitarra, vocais) e Fabio Pignatelli (baixo) lançaram alguns materiais, em 1972, com o nome Oliver.
Quando assinaram com a Cinevox pouco tempo depois, a gravadora impôs que mudasse o nome para Cherry Five.
Se por um lado eles não gostaram dessa mudança, por outro conheceram a esteira para que passassem a conceber trilhas sonoras – afinal, o catálogo da gravadora italiana colecionava trabalhos de Ennio Morricone, Giorgio Gaslini, entre outros.
A primeira colaboração em trilha foi com Dario Argento, no filme Profondo Rosso (1975). Com a partida do baterista Walter Martino para integrar o Libra, eles decidiram mudar o nome da banda para Goblin e colocaram Agostino Marangolo.
Se por um lado a colaboração de Gaslini na composição da trilha de Profondo deu uma direção de thriller despojado, por outro a banda mostrava-se muito arregimentada no escopo do prog-rock de nomes como Yes e Genesis. Justifica-se: para saber se a banda era habilidosa mesmo, Argento deu o prazo de um dia para que gravasse a composição. Gostou tanto, que não ficou tão abatido quando discutiu com Gaslini e o dispensou do projeto.
Ouvir Suspiria, o disco, é ter uma experiência similar a ouvir um álbum fervilhante de jazz. É uma espécie de bebop progressivo: cada entrada dos músicos é triunfal
O aprimoramento do Goblin, no entanto, teve grande salto com a segunda colaboração com Argento. Em Suspiria (1977), a banda assimilou melhor como o enredo se encaixaria musicalmente e criou uma sequência de faixas que, desvencilhada do filme de suspense, adquire uma aura própria. É de horror, claro, mas o horror como contemplação, como algo fantástico. Um contraponto do belo sendo ainda mais belo.
Ouvir Suspiria, o disco, é ter uma experiência similar a ouvir um álbum fervilhante de jazz. É uma espécie de bebop progressivo: cada entrada dos músicos é triunfal. Em “Black Forest”, os solos de guitarra, os efeitos de teclados e a ótima entrada de Antonio Marangolo no saxofone adornam um belíssimo passeio, onde o desconhecido também pode ser glorioso.
“Markos” une a tensão da bateria a efeitos interestelares, que no som estéreo deixam o ouvinte atônito, tentando prever em qual parte do cérebro as percussões irão bater no próximo movimento. Ainda que Agostino propicie o momento nevrálgico da canção, o som de sua bateria não é virtuoso; é na pausa e no ritmo que estão os pontos-chave de tensão que guiam um dos momentos mais aventureiros do filme de Argento.
“Blind Concert” é mais funky – o que não quer dizer que seja alegre. Ora, é o simples pulsar do baixo de Pignatelli que dá vida ao take mais artístico de Suspiria. O entrelace guitarra-teclado é baseado no melhor que a essência prog-rock trouxe nos anos 1970, mas a melhor parte da canção é quando o ritmo encontra a agilidade perfeita e os dois instrumentos pavimentam caminhos próprios, como se bifurcassem e encontrassem, cada um, a melhor essência musical possível.
A faixa-título funciona melhor como um ambient intempestivo. Impressiona o ouvinte de entrada devido a incorporação de elementos musicais: gritos de bruxa, sons de uma caixinha de música, percussões horripilantes e looping que nos faz entender o motivo de Michael Jackson encerrar o clipe de “Thriller” daquela forma.
Quando Simonetti exibe seu órgão eletrificado, ainda que seja por um curto tempo, ficamos arrepiados. (A introdução do filme, por si só, possui um arranjo orquestral arrebatador, de regozijar em pouco menos de 10 segundos.)
“Witch” é a faixa mais horripilante de Suspiria. Parece que estamos diante de um ritual negro, uma magia de bruxa em ação ensaiando os mais terríveis castigos às pobres almas capturadas. (Caso o efeito seja muito devastador, procure o acalanto, sem questionar o motivo, de “Death Valzer”).
A junção da música com o filme foi tão surpreendente que Argento repetiu a parceria em outras ocasiões: em Zombi (1982) e, muito tempo depois, em Non Ho Sonno, que selou o retorno do Goblin em 2000. Mas, mais importante, foi a colaboração com outros diretores italianos a partir de então: Enzo Castellari (La Via Della Droga, também de 77), Joe D’Amato (Buio Omega, de 1979), Armenia Balducci (Amo Non Amo, de 1979), Luigi Cozzi (em Contamination, de 1980, filme de ficção científica que trouxe Ian McCulloch, do Echo & the Bunnymen, como ator principal), entre outros.
A própria formação musical do Goblin foi desenvolvida junto às trilhas sonoras. Suspiria marcou o auge desse brilhantismo, concisão e apuro técnico. Tanto que, depois de passar por esse disco, dificilmente o ouvinte irá largar para conhecer outra trilha destes italianos.
