Gravadora: Universal
Data de Lançamento: Julho de 1972

Se Transa, de Caetano Veloso, é um disco que explicita a metamorfose pessoal de um artista que foi obrigado a viver no exílio, Expresso 2222 é um reprocessamento estético influenciado por essa distância da terra natal.

Na música brasileira, Gilberto Gil foi um dos primeiros e o maior mestre em injetar os elementos da música pop que estourava nos anos 1960 (principalmente Beatles e Jimi Hendrix) em ritmos nordestinos. A maior prova disso está na faixa “Back in Bahia”, onde um Gil saudoso de sua terra (‘Tanta saudade preservada num baú de prata dentro de mim’) comemora e festeja sua volta após ser exilado por conta da ditadura militar aqui no Brasil.

Para ele, não importa bem o momento político: ele quer ouvir Celly Campelo, quer de novo o sal, o mar, o luar, o Riachão, o Nordeste. “Back in Bahia” mistura boogie-woogie, Jerry Lee Lewis, baião, forró. Lanny Gordin, que toca guitarra, parece estar encapetado de tão inspirado.

E que banda que toca no disco! Tem Lanny na guitarra e no baixo (o nosso Jimi Hendrix), Bruce Henry (baixo), Antônio Perna (piano) e Tutty Moreno (bateria). E, claro, Gil no violão, que conduziu toda a sonoridade e inclusive arranjou novas formas de tocar o instrumento – como se pode ver em “O Canto da Ema”, onde o violão passeia por gêneros distintos, indo do sertanejo ao rock, numa canção que brinca com a crendice popular de que o canto da ave só serve pra trazer azar.

Outra que mostra o tato virtuoso de Gil no violão é “Chiclete com Banana”, canção de Jackson do Pandeiro cujo tema é a universalização da música brasileira (‘Quero ver Tio Sam de frigideira/Numa batucada brasileira’). Ela começa meio bossa nova, e naturalmente ganha maior velocidade para chegar no samba-rock e atingir acordes mais presos, fazendo uma intersecção de praticamente todos os elementos musicais de nosso Brasil.

É pura Tropicália que fala de boogie-woogie e samba, de batucada e vícios da música pop. A composição é genial e, na mão (e voz) de Gil, ganhou significado ainda maior por conta da forma que é tocada.

Por mais que seja reconhecido como um excelente letrista, Expresso 2222 traz diversas composições de outros artistas: em “Sai do Sereno”, de Onildo Almeida, chama Gal Costa para um experimento tropicalista que só poderia sair da cozinha musical de Gil; “O Canto da Ema” é de autoria de João do Vale, Aires Viana e Alventino Cavalcanti; “Pipoca Moderna”, o termo que resume bem o hibridismo do álbum, é instrumental assinado por Caetano Veloso e Sebastião Biano; e “Chiclete com Banana” foi escrita por Almira Castilho e Gordurinha.

“O Sonho Acabou” acorda o ouvinte para um novo momento, pós-Tropicalista e pós-anos 50. Quando ele diz ‘quem não dormiu no sleep bag’, faz menção aos não-ativistas no período de repressão da ditadura que não foram se manifestar nas ruas e preferiram ficar em casa em frente à TV. ‘Foi pesado o sono pra quem não sonhou’. Coisa de gênio, coisa de Gil.

A faixa-título foi inspirada em um ônibus que o compositor pegou para chegar à Bahia. Para Gil, ele estava indo em direção ao futuro ‘pra depois do ano 2000’. Onde essa estrada do tempo vai dar é a pergunta que fica na cabeça do ouvinte.

O disco quebrou a ruptura entre música tradicional e popular. Contemporâneo é reavaliar o legado secular da música brasileira e jogá-lo pra frente por meio de suas experiências e sua expertise musical. Foi exatamente isso que Gil fez com Expresso 2222, um dos maiores discos de toda a década de 1970.