01 Turnover02 Repeater03 Brendan #104 Merchandise05 Blueprint06 Sieve-Fisted Find07 Greed08 Two Beats Off09 Styrofoam10 Reprovisional11 Shut the Door12 Song #1 (bônus)13 Joe #1 (bônus)

14 Break-In (bônus)

Gravadora: Dischord
Data de Lançamento: 19 de abril de 1990

Bastou três anos de shows enlouquecedores à frente de uma das bandas mais seminais do punk norte-americano para Ian MacKaye esbarrar com suas limitações. Heroica na forma de conduzir sua carreira e imbatível nos palcos, o Minor Threat teve o fim decretado quando Ian se viu preso aos três acordes do punk-rock. Com o hiato em 1982, por conta dos estudos do guitarrista Lyle Preslar, seria inevitável que cada um seguisse o seu caminho. MacKaye queria se afastar da eminente violência que rondava os clubes em que bandas como a sua tocava. Além do mais, queria trazer pitacos de reggae e funk, fugindo da proposta musical dos primeiros anos da banda. E, em 1983, após um breve retorno, o Minor Threat virou história.

Com as ideias frescas, MacKaye partiu para outros projetos. Formou o Embrace em 1985, que carregaria o fardo de ser uma das pioneiras do emo; no ano seguinte, voltou aos eixos com o Egg Hunt, ao lado do ex-baterista do Minor Threat Jeff Nelson. Seria esse o rumo a ser tomado para o Fugazi, formado em 1987 em Washington – sem deixar de mencionar o curto projeto Pailhead, ao lado dos membros do Ministry.

O Fugazi seria não apenas a banda mais importante de MacKaye; a despeito da importância de Pixies e Sonic Youth para a consolidação do rock alternativo norte-americano, o Fugazi explorou as limitações mercadológicas com o do-it-yourself incrustado em MacKaye desde os anos de Minor Threat.

Repeater é praticamente um disco manifesto do jeito Fugazi de fazer rock, que influenciou gerações até os anos de hoje. MacKaye valorizava shows de preços acessíveis, discos com material barato e detinha o controle de quem distribuiria seus discos (seria a Dischord, após muita disputa).

Musicalmente, a primeira audição de Repeater revela nada mais que uma banda de rock sem frescura, direto ao ponto, intensa, enérgica, potente pra caralho. Era assim que MacKaye queria que a banda fosse vista. Por mais que a ideia inicial fosse “unir Stooges com um pouco de reggae”, a experiência dos projetos anteriores e os perrengues de ‘tocar muito pra ganhar pouco’ favoreceram e muito o impacto de cada faixa desse álbum de estreia.

Se MacKaye era o exemplo mais sólido do que era ser um músico punk, o Fugazi nada mais seria do que a válvula de escape para tamanha energia, certo? Corretíssimo, com o importante adendo de que reunia, talvez despretensiosamente, ira, críticas sociais, desventura pessoal e violência nas letras. Na pancada do melhor que o rock tinha a oferecer.

MacKaye, claro, seria o líder e principal mente por trás do Fugazi, mas não estava sozinho. Logo no primeiro disco descobriu um parceiro valioso, o guitarrista Guy Picciotto. Membro da banda Rites of Spring, Picciotto foi assistir ao recém-recrutado baterista Brendan Canty numa sessão com MacKaye, quando a banda ainda não tinha nome. Percebeu que poderia contribuir ali com seus vocais inspirados nos hype men então em voga no hip hop e se envolveu com a proposta da banda até assumir as guitarras. (Naquele momento, MacKaye tinha acabado de decidir o nome Fugazi, acrônimo para o termo ‘Fucked Up, Got Ambushed, Zipped In’, extraído de uma compilação de histórias de Mark Baker sobre os veteranos da Guerra do Vietnã.)

MacKaye e Picciotto desenvolveram um formato de tocar guitarra que seria muito copiado, mas jamais igualado. Na intensidade dos riffs, elas eram extensão dos despejos vocais das canções. Favoreciam a entrada do baixo de Joe Lally como importante mantenedor rítmico. A faixa-título faz uso dessa dinâmica de forma alarmante, enquanto em “Merchandise” a alternância é cíclica.

Uma das principais características do Fugazi seria cravada logo neste primeiro disco. Às favas com os subrótulos; a banda sabia transfigurar noise e complexidade de acordes de guitarra numa esfera punk em “Brendan 1” como ninguém. “Sieve-Fisted Find” usava o baixo como instrumento massivo no jogo de fricções guitarrísticas. “Greed” abala estádios com seu misto de intensidade e meticulosidade. “Shut the Door” seria parte do escopo grunge que assaltaria o rock de vez no ano seguinte.

Além das 11 faixas do disco original, a versão Repeater + 3 Songs inclui as faixas “Song #1”, “Joe #1” e “Break-In”, registradas dois meses antes no Inner Ear Studios, onde o Fugazi gravaria o álbum, com produção e engenharia de som de Don Zientara e Ted Niceley.

Não que isso tenha a ver com o título, mas Repeater é daqueles discos que não enjoa. A cada repetição dá mais vontade de ouvir, mais e mais alto. Era apenas o começo de muita atividade para o Fugazi. Quebrando limites, ultrapassando as barreiras musicais do hardcore e reinventando a forma e o jeito de lidar com rock, a trupe de MacKaye ajudou a redefinir o conceito de música jovem nos anos 1990. Em tempos de decadência da indústria fonográfica, há muito que aprender com o Fugazi. Principalmente a como fazer rock.