01 Hat and Beard02 Something Sweet, Something Tender03 Gazzelloni04 Out to Lunch

05 Straight Up and Down

Gravadora: Blue Note
Data de Lançamento: 25 de fevereiro de 1964

Os anos 1960 talvez tenha sido a década mais conturbada quando se fala em jazz. De um lado, pensava-se: ‘O que surgiria a partir do modal instituído por Kind of Blue (1959)?’

D’outro: ‘estaria John Coltrane mais pela tradição ou pela vanguarda com seu hard-bop?’

E, ainda: ‘que pataquada significa o Free-Jazz (1960) de Ornette Coleman?’.

Haviam outros gêneros, claro, e a preocupação da notável maioria dos críticos de jazz naqueles tempos era catalogar cada um. Nem sempre é possível dar nomes aos bois, e não por falta de criatividade: simplesmente porque ninguém é predestinado a tal movimento – assim como nenhum boi é predestinado a um pasto.

Enfim, deixemos as comparações bovinas pra lá. Porque o assunto é de porte ainda maior.

Sim, Eric Dolphy era dotado de superlativos. Em sua curta carreira, não renegou os ensinamentos de virtuosos como Coleman Hawkins e Duke Ellington; apontou caminhos de tonação livre e, ao mesmo tempo, sentimental.

Sem ser representante do free-jazz, instituiu o meio-termo entre as harmlodics de Ornette Coleman, a síncope marcante de Thelonious Monk e a liberdade de extrair o melhor de seu instrumento de Sonny Rollins.

Membro de orquestras big band de bebop de Gerald Wilson e Roy Porter, a carreira de Dolphy deslanchou a partir do momento que integrou o quinteto do baterista Chico Hamilton, no final dos anos 1950.

Out to Lunch esteticamente não recobra nada num período de grande vivacidade do jazz. Atesta, por outro lado, a exuberante dinâmica de um instrumentista completo

Foi com Charles Mingus, porém, que Dolphy desenvolveu-se melhor como instrumentista, principalmente no sax-alto e no clarinete-baixo em discos como Mingus At Antibes (1960) e Charlie Mingus Presents Charlie Mingus (1961).

Nesse período, Dolphy lançou seus primeiros discos pela gravadora New Jazz: Outward Bound e Out There, ambos de 1960.

Começou, então, uma parceria musical que se tornaria emblemática: ele chamou o promissor trompetista Freddie Hubbard para seu grupo, que permaneceria até o fim com Dolphy.

Vieram, também, outros músicos que se tornaram gigantes. A nata ficou reunida mesmo em Out to Lunch, seu primeiro álbum pela Blue Note – e seu último em vida: além de Hubbard, o pioneiro Bobby Hutcherson, no vibrafone; o virtuoso contrabaixista Richard Davis, citado posteriormente pelo crítico Greil Marcus, da Rolling Stone, como “o baixo mais grandioso já ouvido num disco de rock” após participar de Astral Weeks (1968), de Van Morrison. E, claro, não podemos esquecer do jovem Tony Williams na bateria, com apenas 18 anos e um futuro brilhante no segundo quinteto de Miles Davis e no influente grupo Lifetime, que deu as diretrizes do fusion-jazz nos anos seguintes.

Celebrado como um dos melhores discos de todo o catálogo da Blue Note, Out to Lunch significou não só o meio-termo das investidas de vanguarda no jazz; seu apuro técnico mostrou que era possível assimilar todas as linguagens que quisesse, sem recorrer a nenhum radicalismo.

No blues de “Something Sweet, Something Tender”, Dolphy dá-se o direito de desenvolver notas truncadas no clarinete-baixo, quando, alguns críticos notariam, poderia deixar fluir o mel do sentimentalismo. O contraponto melódico instituído por Hubbard e pelo baixo de Davis estão ali para representar algo claramente tradicional, já instituído.

A primeira faixa, “Hat and Beard”, tem Thelonious como inspiração. Isso é fácil perceber: está na levada, na síncope. É a ela que Hubbard recorre em seu trompete. Na passagem do vibrafone de Hutcherson, o ouvinte deve ficar atento: a entrada de Dolphy, um tanto fuzarca, como muito se disse sobre Thelonious, é espaçadamente contrastante – algo que serviria como norte para Roscoe Mitchell no Art Ensemble of Chicago. O trompete de Hubbard também é dotado de fervor, swing e virtuosismo. No entanto, a conclusão fica pelas claves melódicas de Hutcherson sobre linhas tensionadas.

Em homenagem ao flautista italiano de música clássica, de mesmo nome, com quem aprendeu bastante, “Gazzellioni” é como se fosse a comunicação de Dolphy com ventos rascantes. O músico sola com vivacidade num instrumento pouco destacado no jazz, deixando a ponte para o charme bop de Hubbard.

O apuro técnico, sentimental e claudicante é levado ao extremo na faixa-título. Exibindo um de seus melhores solos, Dolphy antecipa-se aos tempos das notas. Parece calmo, mas é apenas o saxofonista exibindo um controle exuberante. Nesse quesito, a entrada de Hubbard também é estrondosa: junto à bateria ornamentada de Williams, percebemos o motivo da escolha do bandleader ante um trompetista tão exímio.

“Straight Up and Down” é dotada de uma estrutura avant-garde: os instrumentos se entrecruzam desalinhados, mas nada sai do controle de Dolphy. Quando é ele que sola, os demais instrumentos parecem querer silenciar – mas não fazem isso, para deixar o ritmo de pé, ainda que esse ritmo seja propositalmente difuso.

Na versão japonesa, a Blue Note lançou takes alternativos das duas primeiras canções, que simplesmente mostram a direção musical que Eric Dolphy teorizou em Out to Lunch.

Naquele mesmo ano de 1964, infelizmente, Dolphy teve um forte ataque de diabetes e veio a falecer. Distante de qualquer rótulo, usando o caos como artifício e domando intempéries, Out to Lunch esteticamente não recobra nada num período de grande vivacidade do jazz. Atesta, por outro lado, a exuberante dinâmica de um instrumentista completo.

“Eric masterizou o jazz”, disse Charles Mingus. “E masterizou em todos os instrumentos que tocou”.