Gravadora: Blue Note
Data de Lançamento: 1975

Muitos separam a carreira de Donald Byrd entre a primeira fase, com discos como Byrd in Flight (1960) e A New Perspective (1964), e a segunda, quando abraçou de vez a fase fusion a partir de Electric Byrd (1970).

Quando conheceu os irmãos Larry e Fonce Mizell, na Howard University, seu som tomaria um inesperável rumo pop. Fonce era integrante da The Corporation, que escrevia hits para a Motown – muitos deles para o Jackson 5.

Os irmãos formaram o Sky High Productions e passaram a colaborar como produtores de Byrd em Ethiopian Nights (1972), já dando um novo direcionamento funky ao jazz do trompetista.

O grande estouro, porém, veio com Black Byrd (1973). O disco mais vendido de todo o catálogo da Blue Note mostrou a bem-sucedida transição do fusion-jazz para o pop.

Se Bitches Brew (1970) era o momento inaugural, Black Byrd era sua celebração no mainstream, com mais pitadas de soul, R&B, guitarras wah-wah e até disco, resultando em um groove envolvente.

O appeal comercial hoje é mais evidente, mas na época incomodou muita gente. O trompetista Thad Jones chegou a declarar que não havia “nada musicalmente válido” no que Byrd estava fazendo.

Donald Byrd se vendeu?

Vale lembrar que Byrd já era considerado um dos grandes trompetistas após a era de Clifford Brown no hard-bop. Tocou com Thelonious Monk, Art Blakey e apresentou um jovem Herbie Hancock ao mundo em Out of This World (1961), com o saxofonista Pepper Adams.

Enquanto críticos e alguns instrumentistas mais conservadores diziam que Byrd havia se vendido, ele não hesitou em experimentar novas formas de fazer com que o jazz encontrasse o pop.

Em Black Byrd, os vocais têm significativa importância, assim como toda a cozinha musical.

Mas o grande suprassumo dessa fase é o álbum Stepping into Tomorrow, e não é nem preciso ser especialista para saber o motivo.

Além dos irmãos Mizell, responsáveis pela produção, orquestração e pelos arranjos, Byrd contou com o importante empenho de Gary Bartz (sax-alto e clarinete), que ajudou a formatar uma espécie de segunda fase fusion de Miles Davis, o baixista Chick Rainey (que tocou em vários clássicos do Steely Dan) e o baterista Harvey Mason (dos Headhunters, de Herbie Hancock, outro que também passou a ser contestado após assumir de vez a eletrificação sonora). Isso para focar só nos principais, já que o disco conta com backing vocals, guitarras, percussões, piano…

Funk-soul-jazz

Classificando genericamente, Stepping into Tomorrow tá mais pra soul e R&B do que jazz, embora se trate de uma discussão ultrapassada.

Byrd sempre soube usar sopros com elegância e, ao ouvir este disco, você compreende porque, alguns anos depois, ele seria um grande acadêmico.

Seu som se destaca mesmo dentro do formato canção, que não permite muitas variações estilísticas. Para chegar ao resultado de sons como “You Are the World” ou ao marcante fraseado de “We’re Together”, é necessário precisão.

Baixo e guitarras formam parte natural do sustentáculo funky que Donald Byrd preparou para este disco, mas o que realmente agrada é sua força sentimental. A cantora Kay Haith ajuda e muito a essa chegada, vide o que oferece em “Think Twice”, em dueto com um carinha chamado Sigidi.

O próprio Byrd não tem receio de assumir os vocais no disco, prova de que operava de forma diferente da época em que tocou ao lado de John Coltrane, por exemplo. Na faixa-título, os vocais e o baixo são os fios condutores para um som relaxante, até que “Design a Nation” sugere um contraste da tranquilidade e a dança estrepitosa.

Quando assume o flugelhorn, Byrd dá um outro direcionamento aos temas. Geralmente pondo as notas em fragmento, ele permite que o entrecruzamento musical flua naturalmente, priorizando a sutileza aos sons arrebatadores do bop.

“Byrd estava em ótima forma nesses discos”, disse Darcy James Argue, líder da big band Secret Society, sobre a fase eletrificada do trompetista. “Seu som era sombrio e lírico, suas ideias eram exuberantemente intuitivas e tudo que ele tocava se encaixava muito bem”.

O trompetista pode ter se afastado de compositores mais tradicionais, mas sua influência causou impacto enorme em outros gêneros musicais. Ouvir “Rock’N Roll Again” é praticamente testemunhar o nascimento do Steely Dan. “I Love the Girl” antecipou o que seria o famoso chillout e “We’re Together” deve ter tido seu apelo para o trip hop.

Não podemos esquecer da gigante influência que Byrd exerceu no hip hop. De LL Cool J a Guru (do Jazzmatazz) – sem esquecer o grande apreço de Madlib ao retrabalhar a faixa-título de Stepping Into Tomorrow, em Shades of Blue (2003) – Byrd preferiu expandir os horizontes e fazer do jazz inspiração para outras linguagens, formatos e expressões.

Puristas que me perdoem, mas tem que ser muito insensível para não deixar-se levar pela beleza desta maravilha de disco.

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