Gravadora: Norgran
Data de Lançamento:
Segundo semestre de 1954

Dizzy Gillespie foi o trompetista mais influente da era bebop, mas uma de suas maiores contribuições estéticas foi possibilitar a integração de ritmos cubanos e latinos nas big bands norte-americanas.

O interesse de Dizzy por essa vertente conhecida como afro-cubana data de seus primeiros anos em Nova York. Após se familiarizar com o som de grupos de Mario Bauza e Albert Socarras, ele conheceu o percussionista Chano Pozo, por volta de 1947, e tudo mudou.

Pozo, que nem sabia falar inglês na época, foi apresentado a ele por Bauza. Ao lado do compositor George Russell, Dizzy e Pozo criaram uma combinação de percussões exóticas e arranjos em suíte. “Foi a mais bem-sucedida colaboração entre três pessoas que já vi”, gabou-se o trompetista ao lembrar de um concerto no famoso Carnegie Hall.

Durante esse período, Dizzy compôs “Manteca”, uma explosão metálica capitaneada por um trompete que exerce função de liderança ao antecipar os combos de horns.

O biógrafo Alyn Shipton, no livro Groovin’ High: The Life of Dizzy Gillespie, assim descreveu a canção: “’Manteca’ é um híbrido entre os ritmos cubanos e as vozes instrumentais que flutuam perigosamente próximas do clichê, de um lado, e no swing naturalmente desinibido dos pequenos grupos de Dizzy. A big band era o lar natural dele”.

Dizzy Gillespie e o samba-jazz do crioulo doido

Dizzy era um dos jazzistas mais inquietos de seu tempo. Além de buscar novas formas de expressar com o seu trompete a frente das big bands, ele foi um dos primeiros a explorar a linguagem modal – bem antes de Miles Davis, que se beneficiou dos ‘ensinamentos’ de Russell no clássico Kind of Blue (1959) – mas a influência da América Latina como um todo marcaria de vez alguns de seus melhores trabalhos.

Um deles é Afro. Lançado em 1954, após ter maturado bem a experiência com o ritmo e a percussão latinas, marcou a parceria com o também trompetista Arturo ‘Chico’ O’Farrill, cubano que estudou com teóricos do atonalismo.

A presença de O’Farrill é tão fortemente sentida quanto à de Dizzy. A sequência “Jungla” e “Rhumba Finale” cria demarcações sintomáticas. Começa num riff e não demora para que a simbiose dos trompetistas forme um joguete que favorece a extensão das notas em intervalos medidos pelo compasso percussivo.

Por se tratar de uma big band, o corpo metálico é bem robusto: Quincy Jones e Ernie Royal fortalecem o trompete no álbum. Os influentes J.J. Johnson (trombone) e Hank Mobley (sax tenor) contribuem na robustez sonora de “Rhumba Finale”, que disputa com os bandleaders associados ao pós-guerra o clima ‘atômico’ de entradas abruptas e solos marcantes.

Embora seja um álbum muito marcante, Afro é breve demais. Os caminhos estéticos de Dizzy são tão abrangentes, que ele dá uma boa pista de como a década de 1950 foi tomada de assalto por suas big bands.

Embora tivesse sido composta nos anos 1940, a entrada solo do trompetista em “A Night in Tunisia” é fortemente impulsionada pela conga de Mongo Santamaria, com breves passagens da flauta de Gilberto Valdes, que dá o prenúncio de bons ventos.

Em “Caravan”, Valdes já exerce uma função tipicamente rítmica, dando ás na manga para Dizzy puxar notas de uma agilidade descomunal. A composição de Juan Tizol tem um acompanhamento, ainda que breve, do pianista Réne Hernandez, mas é a percussão de Ralph Miranda que a mantém viva como se fosse parte de um ritual de atabaque. Puro vodu, quer dizer, pura essência de como Cuba só fez bem a Dizzy.

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