Gravadora: RCA
Data de Lançamento: 7 de março de 1975

Muitos já devem saber que ontem foi o dia em que se comemorou o aniversário de 65 anos de David Bowie, uma figura icônica e, ainda nos dias de hoje, necessária para a renovação da música pop. Para retornar com a seção #Grandes Álbuns de 2012, vamos falar sobre um de seus discos mais polêmicos: Young Americans.

Bowie sempre esteve associado à renovação musical desde que ganhou maturidade com o disco Space Oddity (1969), além de gravar canções emblemáticas como “Changes”, que expôs sua androginia e personalidade ‘camaleônica’, e “Life On Mars?”, talvez uma de suas melhores músicas. Ambas ficaram registradas em Hunky Dory (1971).

Com The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars (1972), Bowie deu maturidade ao processo de se compor uma ‘ópera rock’ ao explorar a vida de um homem meio alienígena que fica seduzido por prazeres mundanos, como ser um rock star. Muito mais que uma renovação no rock, este disco tem um enredo criativo: o músico utiliza um personagem-clichê da época – um rock star – que carrega consigo a utopia de mudar a humanidade em até cinco anos, mas sucumbe aos excessos das drogas, fama e desolação.

Quando Young Americans foi lançado em 1975, muitos devem ter se perguntado: por que raios David Bowie caiu para o soul?

Na verdade, o álbum não apresenta nada de novo para o gênero. É totalmente uma incursão pessoal do músico ao R&B, gênero que fascinou o músico.

O single “Young Americans” fala de repressão McCartista e de inúmeros problemas sociais que assolavam a maior potência mundial

Só que, ironicamente, o disco do inglês tornou-se a porta de entrada crucial para conquistar os Estados Unidos. A resposta disso é um tanto óbvia: o soul floresceu por lá e, apesar de ter tido seu auge nos anos 60, ainda encantava com os singles postos pela Motown, tendo como principais ‘mantenedores’ (pelo menos em 1975) os músicos Marvin Gaye e Stevie Wonder.

A mensagem aos Estados Unidos também é bem direta: o single “Young Americans” fala de repressão McCartista e de inúmeros problemas sociais que assolavam a maior potência mundial. O sax jazzístico de David Sanborn é preciso e se impõe como o instrumento que melhor dialoga com as referências norte-americanas. Incrível é perceber como o camaleão conseguiu interpor rock and roll e soul music nos moldes de uma canção como “A Day in the Life” (The Beatles), que veio como ponto de partida.

Já pela primeira faixa do disco, você percebe que o soul não é apenas uma megalomania na cabeça do músico. Por mais que soe controverso na discografia do camaleão, é o contraponto essencial para entender por que Bowie tinha uma capacidade rara de perseguir e executar o gênero que quisesse.

Este disco também tem algumas das canções que eu colocaria no topo das melhores de Bowie: uma delas é “Fascination” que, pontuada por um baixo funky de Willie Weeks, mostra que é possível a intersecção entre a seção rítmica vigorosa do rhytm’n blues com vocais arrastados mais agudos. Não que Bowie forjasse ser um cantor de soul music potente como Otis Redding ou Wilson Pickett; a canção é uma incursão que carrega a sinceridade e a qualidade em uma mesma balança.

“Fascination”

“Fame”

Outro hit certeiro é “Fame”, que também reflete a influência de John Lennon em seu trabalho. Os dois começaram a trocar ideias e até dividem a composição desta música. Ela foi gravada numa sessão no Electric Lady Studios em janeiro de 1975. Além dela, Bowie fez um cover de “Across the Universe”, um dos pontos altos de Let It Be, dos Beatles – e que também ficou registrada em Young Americans.

Lennon participa nos backing vocals de “Fame” e Bowie, numa pontuação entre baixo e guitarras funky que evocam um delírio sobrenatural, questiona os verdadeiros preços de se manter no topo da fama, além de mostrar a vulnerabilidade inevitável a esse status: ‘Fama: é de se admirar que você seja tão bacana para enganá-la’.

Entenda Young Americans como um desvio, uma obsessão ou um nicho à parte da discografia do camaleão. Mas acho que o maior ensinamento deste disco é mostrar que um músico multifacetado como ele tem passe livre para seguir os rumos que lhe derem na cabeça. Para mim, o melhor disco de David Bowie.