
01 When Mama Was Moth 02 Five Ten Fiftyfold 03 Sugar Hiccup 04 In Our Angelhood 05 Glass Candle Grenads 06 In the Gold Dust Rush 07 The Tinderbox (of a heart) 08 Multifoiled 09 My Love Paramour
10 Musette and Drums
Gravadora: 4AD
Data de Lançamento: agosto de 1983
‘Estranhamente belo’ seria o melhor termo para definir o segundo disco do Cocteau Twins.
O belo, por conta de sua sonoridade. O estranho se explica: depois de gravar o primeiro álbum, Garland (1982), o baixista Will Heggie saiu da banda após a turnê que sucedeu o lançamento do EP Peppermint Pig. E surge o enigma: como a dupla reminiscente Elizabeth Fraser e Robin Guthrie conseguiu gravar um disco tão grandioso como Head Over Heels?
Claro que essa transição não seria fácil. Na turnê que marcou a saída de Heggie, a banda (quer dizer, dupla) se viu com dificuldades em reproduzir as canções ‘sangrentas de boas’ do trabalho de estreia.
Os escoceses tiveram que cancelar boa parte dos shows agendados. Sem grana, se viram no impasse de ter que sair do aluguel e caçar qualquer buraco para morar.
A salvação foi o convite de dois amigos envolvidos com música, que ofereceram teto para deixar os equipamentos na casa deles por uma semana.
A estadia durou um ano. No primeiro semestre de 1983, Elizabeth (Liz) e Robin tentaram reproduzir suas músicas em volume alto, mas eram repreendidos pela vizinhança – em sua maioria, de idade avançada. Isso não fez com que a dupla desistisse de suas buscas sônicas mas, ao ouvir de cara a faixa introdutória “When Mama Was Moth”, o ouvinte percebe que está diante de um disco diferente, em que o termo ‘barulhento’ está longe de ser um dos principais adjetivos.
Se antes o Cocteau Twins era parte de uma prolífica cena pós-punk, com Head Over Heels fez do subgênero uma nova possibilidade de descobertas. As guitarras continuam altas (tanto que, isoladas, justificam-se como embrião do que se tornaria o shoegaze), mas as ambiências é que se tornam enfáticas. A voz de Liz adquiriu maior destaque melódico, unindo tons dramáticos e uma sensibilidade rara encontrada mesmo hoje, mais de 30 anos depois.
Uma das grandes marcas do canto de Liz é a natural transição da melancolia para o bom humor. É tudo muito bem entrelaçado. Em “In the Gold Dust Rush”, o ‘ouro de tolo‘ da vida da cantora contraditoriamente é adornado por uma beleza estética: synths etéreos, violões ágeis e, claro, o vocal derretido de Fraser, que encanta por sua firmeza.
“Five Ten Fiftyfold” mantém-se até hoje como uma das músicas mais celebradas para quem conhece o CT além de Heaven Or Las Vegas (1990) e mostra uma direção singular. É delirante como espiral numa colmeia de abelha: há doçura e há ferrões, numa deliciosa viagem particular – que fica ainda mais intensa com a entrada do sax de Ally, algo muito bem assimilado nos dias de hoje pelo Destroyer.
Outra faixa com status de hino é “Sugar Hiccup”, com a sensibilidade de Fraser nos tocando como reles mortais. Se grupos como Beach House colhem os louros com o dreampop é porque o espectro desta canção paira em cada acerto da banda que consagrou-se com Teen Dream (2010).
No Brasil e em alguns países da Europa, a edição em vinil de Head Over Heels vinha com o EP Sunburst and Snowblind, com 4 faixas. A pseudo-baladinha “From the Flagstones” e o pós-punk “Because of Whirl-Jack” soam como takes imaturos do que depois seria evoluído com maestria, enquanto “Hitherto” já possuía a soberania evidenciada no álbum de 83. Para completar, um repeteco de “Sugar Hiccup”.
Contemplar sob a preguiça ainda é a melhor forma de se extasiar com Head Over Heels. Muito já foi sugado deste que é um dos registros mais curiosamente belos de toda a década de 1980: além de pavimentar o start da renovação do próprio Cocteau Twins, este disco é uma das pedras fundamentais para entender a atual andança do cenário indie.
Isso mostra que ainda há muito a se explorar por aqui. E, claro, se estranhar…
