01 A Hora é Essa 02 Toda Quarta-Feira Depois do Amor 04 Ay Adelita 05 Vida de Artista 06 Mia 07 Na Boca do Sol 08 Em Família 09 Detalhes 10 É Preciso Dizer Adeus 11 Dez Bilhões de Neurônios

12 Badalação (Bahia Volume 2)

Gravadora: Columbia
Data de Lançamento: 1972

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Célia foi uma das intérpretes mais completas da MPB pós-anos 1970. Ela cantava samba, boleros, bossa nova e músicas consideradas modernas para a época.

No entanto, em pleno século XXI, a cantora permanece cultuada por fãs de… rap.

A culpa incidental é de Ludacris. Em 2008, ele incluiu no disco Theater of the Mind a faixa “Do The Right Thang”, com participações de Common e do cineasta Spike Lee. O sampler é de Arthur Verocai. A faixa é “Na Boca do Sol”, do disco homônimo do maestro gravado em 1972.

Antes de ser registrada naquela versão experimental de um disco que gera tapas em sebos ainda nos dias de hoje, “Na Boca do Sol” foi dada de presente para Célia, que gravou no mesmo ano de 1972 seu segundo disco homônimo pela Columbia.

A versão de Célia é simplesmente uma peça geniosa. A cantora dá corpo, uma vivacidade sentimental de quem cresceu ‘na minha cidade do interior’ (a cantora é de São Bernardo do Campo, cidade paulistana nem tão do interior assim). Os arranjos começam extremados e buscam uma singeleza que encontra conforto na voz firme da cantora.

(É no mínimo curiosa a relação da música com a saudade, algo recorrente na música sertaneja. Afinal, a Columbia era uma gravadora sertaneja e provavelmente deve ter se encantado com “Na Boca do Sol”.)

A bela faixa não foi a única contribuição de Verocai no disco. Ele produziu os arranjos do LP e cuidou da regência de todas as 12 faixas.

Outra canção gigante deste disco é “Detalhes”. Sim, a canção que você conhece de Roberto Carlos e Erasmo Carlos havia sido um presente dos compositores à Célia, que deu um tom mais sereno que exasperado à canção. A dupla da Jovem Guarda também entregou uma inédita, “A Hora é Essa”, um soul-funk transgressor (‘Perdi mocidade à beça/Dando nó à tradição’) que pareava com a música de Tim Maia. A orquestração e o piano solto são fragmentos da genialidade de Verocai.

Uma das maiores virtudes de Célia como intérprete era a versatilidade. Ela atingia o timbre ideal para formar um enlace próprio entre músicos de distintas vertentes, como Roberto Carlos e Vinicius de Moraes – que lhe cedeu “É Preciso Dizer Adeus”, balada composta com Tom Jobim que remete mais à paisagem urbana paulistana que aos mares bossanovistas do Rio de Janeiro.

De alguma forma Célia impunha seus maneirismos próprios nas canções. A acústica “Toda Quarta-Feira Depois do Amor” soa como se uma diva-furacão quisesse ser límpida. Esta faixa foi escrita por Zé Rodrix com música de Luiz Carlos Sá – dupla que também emprestou “Vida de Artista”, onde os maneirismos da cantora ganham trejeitos quase maloqueiros: ‘Se tá legal pra você eu posso ficar/Um dia ou dois’. Duvido muito que Elza Soares não tenha pirado no jeito ‘bocado torto’ de Célia quando ela dispara: ‘Se tá legal?!?/Ou se não tá legaaall?’.

Os irmãos Paulo Sérgio Valle e Marcos Valle são autores de “Dominus Tecum”, a mais (afro-)espirituosa faixa do disco. Ela soa como uma espécie de contraponto à reflexiva “Dez Bilhões de Neurônios”, onde a ciência pode ser utilizada para justificar decisões sentimentais. Tal contraponto não é apenas temático; enquanto a primeira une baile e candomblé numa musicalidade dançante, a segunda é bem meditativa e paradinha. Mais uma comprovação de que a cantora não se aprisionava a gêneros.

Se ainda acha que a versatilidade é pouca, saiba também que ela gravou uma canção do mexicano Armando Manzanero (“Mia”) e encerrou o disco com um samba dos bons, “Badalação (Bahia Volume 2)”, bem mais anos 1940 que 70 (não à toa chegaram a compará-la a Carmen Miranda, pelo bem e pelo mal).

Com uma produção tão estupenda em seu segundo disco, Célia deve ter se sentido quase em dívida com Arthur Verocai.

Concluída as gravações, a compositora aproveitou sua influência na gravadora para impulsionar o projeto do músico. “Como eu virei a rainha da Continental, virei um dia e falei: ‘Tem um maestro aqui que é maravilhoso e quer fazer um disco instrumental. Por favor, lancem pra mim’. E a Continental dizia ‘pois não’”, declarou a cantora em entrevista a Ronaldo Evangelista. “Ele fez com todas as cordas e pompa e circunstância que quis, não teve problema nenhum”.

O disco homônimo de Verocai seria um marco do experimentalismo instrumental na música brasileira. Mas venderia muito pouco, fazendo com que o músico se dedicasse à composição de jingles e trilhas propagandísticas. Ele voltou à ativa nos anos 2000, gravando com Azymuth, Ivan Lins e um disco em parceria com Brian Cross. Também ajudou a produzir o elogiado Feito Pra Acabar (2010), de Marcelo Jeneci.

Quanto à Célia, gravou mais dois discos homônimos depois deste trabalho e homenageou compositores como Paulinho da Viola, Adoniran Barbosa, Maysa, Dolores Duran, entre outros, com sua voz nada forçada de boa.

Seu último disco é Outros Românticos (2011), onde regravou músicas de Roberto Carlos que não foram compostas por ele.