01 Pinch 02 Sing Swan Song 03 One More Night 04 Vitamin C 05 Soup 06 I’m So Green

07 Spoon

Gravadora: United Artists
Data de Lançamento: Novembro de 1972

A inclusão do single “Spoon” no seriado Das Messer na TV alemã possibilitou ao Can uma gravação com melhor estrutura para conceber seu quarto disco de estúdio, Ege Bamyasi.

Talvez essa mudança não fosse necessária. Depois de explorar recursos tecnológicos com teclados e sintetizadores, além de criar uma seção rítmica que até hoje confunde conhecedores e neófitos de rock e jazz, o Can partia para mais uma jornada.

Todo disco era encarado como uma aventura para os ouvintes – e um ‘teste sonoro’ para os integrantes.

Para se ter uma ideia de como eles encaravam este campo artístico, após a saída de Malcolm Mooney os nerds-descolados-fãs-de-matemática-e-programações Irmin Schmidt e Holger Czukay se depararam com Damo Suzuki, um mendigo oriental nas ruas de Berlim. Ficaram pasmos com suas gritarias e o chamaram para cantar, sem ensaio algum, em um show que já estava esgotado.

Em estúdio, tudo começou de forma um tanto difusa em Soundtracks (1970), onde eles refizeram algumas trilhas. Mas, com Tago Mago (1971), a presença do vocalista seria bem mais solidificada. Canções como “Mushroom” e “Hallelluhwah” mostraram que a falta de controle vocal era o grande trunfo. Não sei dizer se a improbabilidade era bem uma aposta, mas é símbolo de uma música livre, que muitos catalogam como krautrock justamente por ter sido produzida na Alemanha pré-queda do Muro de Berlim (isso é pauta para outro assunto).

Czukay e Schmidt eram discípulos do compositor Karlheinz Stockhausen, tido como um dos maiores experimentadores musicais do século XX. Esse direcionamento foi bem tomado na hora de partir para o avant-garde. Por mais que este gênero seja complexo, ele ainda não cabe única e totalmente ao som do Can. Tampouco para Ege Bamyasi.

O quarto disco do grupo é fortemente regido pelo baixo esparso de Czukay, em contraponto com a bateria ácida de Jaki Liebezeit (de talento superior ou comparável a Ginger Baker).

Tudo é difuso, como uma sonoridade espacial.

A voz de Suzuki vem numa entrada arrítmica, como se fosse mais um instrumento complementar a uma jam que pode ser ouvida sob dois ângulos: como um free-jazz desprovido do elemento virtuose; ou como a obra que melhor bate de frente ao contemporâneo On The Corner (aí, vale lembrar que esta obra de Miles Davis também teve influência de Stockhausen).

Mas nenhuma comparação cabe a esta obra-prima. Um disco que tem baladas como “Sing Swan Song” e “One More Night” nada têm a ver com fusion, ou com música eletrônica (e, por favor, esqueça qualquer paralelo com o tal de schlager, o pop superficial que a indústria musical alemã queria comercializar no pós-guerra).

Com o andar das canções, percebemos que estamos diante de um disco temperamental. No entanto, é um temperamento mais linear – e não tão anárquico quanto Tago Mago, a prova irrefutável de como o primeiro show do Can com Suzuki deve ter sido insano a ponto de expulsar gente da plateia.

Quando o vocalista não urra, as guitarras assumem um tom rítmico, como se fossem o apoio enquanto Suzuki descansa. Não é música feita para músicos – e, sim, música expansionista feita da bagunça de sentidos para bagunçar os nossos sentidos.

Como diabos isso pode ser bom? Na teoria, os principais músicos são todos estudiosos. Além de Stockhausen, há nesses currículos música clássica, primórdios da música eletrônica e conhecimento técnico na manipulação de equipamentos.

A experiência sensorial é construída a partir da fuga de qualquer tipo de rotulações. Em entrevistas, eles afirmaram que não queriam saber de rock, jazz ou de revolucionar alguma coisa. Tudo era um ‘teste’. E, neste ‘teste’, eles flertam com uma espécie de rock alarmente (“Vitamin C”, com a célebre repetição: ‘You lose it/You lose it/You lose it’), um tipo estranho de jazz cantado com psicodelia rasgada (“I’m So Green”) e um contorno emblemático por leves referências de música indiana, pop, enxertos de trilha e muito acid-rock em “Soup”, que em seus mais de 10 minutos passa por modulações de velocidade, gotejos de virtuosismo e muito noisy apimentado pela bateria, inflamando caos num terreno que depois seria explorado pelo post-rock.

E quanto a “Spoon”, o que dizer? Bom, o argumento mais óbvio é que David Byrne iria beber muito dali com os Talking Heads. Os primórdios africanos do funk estão escondidos naquelas guitarras e efeitos. É uma faixa que não se entrega, não abre o jogo. Travestida por linhas de teclados que encantariam Ray Manzarek (que faleceu ontem, inclusive R.I.P.), a música flerta com o pop de maneira obscura. Ali, os temperamentos de todos os integrantes encontraram um ponto em comum – algo que se percebe com a sincronia que divaga nas faixas anteriores.

Por incrível que pareça, “Spoon” conseguiu o 6º lugar nas paradas da Billboard alemã. Claro que isso se deve à aparição no seriado. Mas este crivo foi essencial para a ampliação do público do Can.

Talvez muitos ainda devam escutar Ege Bamyasi com atenção. Tentativas de refazê-lo e retomar sua relevância não param – vide remixes do Sonic Youth e a recente versão de Stephen Malkmus & The Jicks, que gravou o disco inteiro em CD.

Tomara que mais pessoas emprestem seus ouvidos a essa obra tão sensorial, quanto experimental e temperamental.

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A seguir ouça Ege Bamyasi, do Can, na íntegra: