01 You Don’t Know Me 02 Nine Out of Ten 03 Triste Bahia 04 It’s a Long Way 05 Mora na Filosofia 06 Neolithic Man

07 Nostalgia (That’s What Rock’n Roll is All About))

Por que um disco que não tem hits e composições de força tornou-se a maior obra de um artista e uma das mais emblemáticas de toda a música brasileira?

Sei que essa é a pergunta que fica quando neófitos se deparam com Transa, quinto álbum de Caetano Veloso, que completa 70 anos amanhã (terça, 7 de agosto).

Lançado no período em que estava exilado em Londres por conta da ditadura militar, Transa é o segundo registro do baiano na capital inglesa (o anterior é o homônimo de 1971, conhecido como London, London) e mostra o flerte da música tradicional brasileira com os elementos pop universais, ligando Beatles e baião, Dorival Caymmi e música europeia, Tropicália e reggae (gênero que Caetano se maravilhou naquele momento e que serviu de inspiração para “Nine Out of Ten”, com uma levada que coube muito bem ao violão de Jards Macalé).

O disco já impacta com a linda “You Don’t Know Me”, canção que Caetano soa confessional ao reforçar sua identidade brasileira ao cantar a primeira parte em inglês, como se estivesse em uma conversa com um estrangeiro na terra dele.

Caetano atinge timbres mais intensos – ainda mais com a bateria de Aureo de Souza – e torna-se mais eloquente na conversa falando em português, como se a emoção impedisse o músico de manter a compostura. ‘Eu agradeço/Ao povo brasileiro/Norte, Centro, Sul inteiro/Onde reinou o baião‘.

“Triste Bahia”, onde Caetano se baseia em um poema de Gregório de Mattos, é uma composição linda, mas pode afastar alguns ouvintes por seus quase 10 minutos de duração.

Ela faz uma passagem pelas tradições musicais dessa terra de mistérios, inserindo aos poucos atabaque, berimbau de capoeira, samba, canto de roda, candomblé, ‘estrela do Norte’… Imagina juntar todas essas referências em um disco praticamente tocado ao vivo.

Para conceber Transa, Caetano passou por um período de melancolia (transparente no disco anterior), até que fez uma breve visita ao Brasil em cerimônia comemorativa do casamento dos pais. Foi aí que ele reprocessou aquele caldo cultural que gerou a Tropicália anos antes. Chamou músicos amigos (e, claro, virtuosos) para criar uma experimentação estética ao vivo: Macalé (violão), Aureo (bateria), Moacir Albuquerque (baixo) e Tutty Moreno (percussão).

Como é de perceber, o nome do disco resulta das intersecções e conflitos estéticos de Caetano naquele momento: a tradição do país x música pop universal x o embate de viver fora do país de origem.

Pois, como canta em “It’s a Long Way”, a relação de Caetano Veloso com o Brasil só fez aumentar: ‘Arrenego de quem diz/Que o nosso amor se acabou/Ele agora está mais firme/Do que quando começou‘.

1972 foi o último ano de Caetano no exílio. Foi a partir daí que ele se libertou de amarras que nem mesmo sabia que tinha e partiu para a eterna jornada de distorcer e procurar novos rumos para a música brasileira.