
01 Sweat Loaf 02 Graveyard 03 Pittsburgh to Lebanon 04 Weber 05 Hay 06 Human Cannonball 07 U.S.S.A. 08 The O-Men 09 Kuntz 10 Graveyard
11 22 Going On 23
Gravadora: Touch and Go
Data de Lançamento: março de 1987
Quem gosta de música torta e experimental vai encarar o terceiro álbum do Butthole Surfers como um compêndio de maravilhas: tem as guitarras de Captain Beefheart convergindo com os achados do Suicide; a psicodelia escabrosa do 13th Floor Elevators com os vocais meio em walkie-talkie que depois viriam a influenciar o metal industrial; do krautrock pré-eletrônico da primeira fase de Popol Vuh (“Hay”) às proximidades com o Muslimgauze. Sem deixar de lado o punk em sua forma mais crua, à lá Dead Kennedys.
Locust Abortion Technician é um disco fácil de desencavar referências obscuras e tresloucadas, mas não se escora em nenhuma delas.
O disco mais doido dos texanos do Butthole Surfers é daquelas obras que se equiparam a Swordfishtrombones (1983), Trout Mask Replica (1969) ou Freak Out! (1966) no quesito ‘quebrar o sentido catatônico das coisas’ (como disse o sábio Beefheart). Está em praticamente todas as listas de discos mais experimentais de todos os tempos.
Neste disco, as guitarras são tão corrosivas quanto as experiências alucinógenas dos anos 1960.
Os vocais de Gibby Haynes adquirem status interplanetário com o uso de um sistema inovador particularmente chamado de ‘Gibbytronix’. Ela torna-se aguda, ininteligível em “The O-Men” e arranca gritos animalescos e sádicos em “Human Cannonball” que, apesar da letra sadomasoquista, é uma das composições mais normaizinhas que você encontrará no disco.
Apesar das muitas estranhezas constatadas em Locust Abortion Technician, boa parte delas viria a influenciar o rock experimental. “U.S.S.A.” tem vocais sofridos e quase imbecis, mas é praticamente um embrião estético do space-rock; “Pittsburgh to Lebanon” se arrasta nas guitarras de Paul Leary, que serviriam de andamento à sanguinolência do industrial; e “Graveyard”, repetida no disco (segunda e penúltima faixas), tem elementos que posteriormente seriam indefectíveis ao sludge-metal.
Claro que a seriedade passa longe de tudo que se encontra neste disco. A gravadora Touch and Go, que se firmaria como uma das principais divulgadoras do noisy-rock que crescia na segunda metade dos anos 1980, deu carta branca para os integrantes terem total liberdade, sem se preocupar com gastos de gravações.
Sabendo-se que estamos falando de uma gravadora independente, isso não garantia luxo algum aos Surfers. À disposição, eles tinham apenas um microfone e um gravador de oito canais ultrapassado. Segundo Paul Leary, isso deu maior criatividade à banda, que podia usar o alucinógeno que quisesse naquelas salas. (Por ironia do destino, uma década depois os integrantes da banda entraram na Justiça contra a Touch and Go, que se achava no direito de comercializar a obra do Butthole Surfers por um período de 35 anos sem firmar um contrato específico. A gravadora perdeu a causa.)
Ainda que a anarquia de alguma maneira seja encontrada em Locust…, este disco está longe de ser uma obra bagunçada. Os solos da guitarra de Leary o colocariam no panteão de um dos melhores daquela geração, vide o blues apocalíptico de “22 Going on 23” ou nos pedais eletrizantes que formam os 40s de “Weber”.
Todas as faixas do álbum são de autoria do grupo, com exceção da pilhéria arabesca de “Kuntz”, escrita por Kong Katkamhaeng e não creditada no disco. Phloen Phromdaen é quem interpreta a composição em meio a uma espécie de brincadeira feita pelos integrantes do grupo em estúdio.
Ainda mais doida que “Kuntz” é “Hay”. Inicia como vaias abafadas de uma plateia que aguarda a surpresa dos Surfers, que apenas responde com ranhuras de guitarra sobre um drone intermitente. “Sweet Loaf”, que inicia o disco, é uma paródia ao clássico “Sweet Leaf”, do Black Sabbath.
Se Locust Abortion Technician causou uma influência tamanha no rock, provavelmente isso seja acidental. A ideia do Butthole foi sempre experimentar, na ousadia esculachada que o punk poderia possibilitar.
Cada faixa desse disco tem uma grandiosidade maluca, quase estapafúrdia. É a prova de que a falta de limitações pode levar a uma obra extremamente aborígene e, ainda assim, fascinante.
