01 Risa And Shine02 Liberation03 Botha The Mosquito04 Want To Come Home05 Ready When You Ready06 Didn’t You Know07 Dash Wey The Vial08 Bald Head Jesus09 Food

10 Serious Thing

Gravadora: Shanachie
Data de Lançamento: 1989

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Snoop Dogg estava certo ao acatar o conselho de Bunny Wailer para tornar-se Snoop Lion. Mas, só foi o ex-membro do The Wailers criticar sua abordagem no disco e no filme Reincarnated (2013) para o rapper disparar: “Você não era merda nenhuma nos Wailers. Você era apenas um deles: Bob, Peter Tosh e depois você. Eles mortos significam mais do que você vivo”.

A subvalorização de Bunny no grupo que deu aclamação à carreira de Bob Marley é injusta sob parâmetros artísticos. Sem a forte personalidade combativa de Peter Tosh ou o carisma nato de Bob, Bunny Wailer pouco exerceu sua habilidade como compositor no grupo que manteve formação original até 1973. No entanto, surpreenderia alhures com a estreia em disco solo, Blackheart Man (1976).

A despeito das marcantes características de seus amigos de infância, Bunny dotava de uma habilidade que faltava a Peter e Bob: maior temperança musical. Como alguns próximos já constatavam, cantava melhor que os dois, mas por ser backing vocal da formação original dos Wailers, sua presença era quase despercebida. Seu timbre só seria observado em “Hallelujah Time”, do último disco com os Wailers originais reunidos, Burning’ (1973) – melhor álbum de toda a carreira de Bob Marley de acordo com nossa lista.

O passar dos anos mostraria que o protagonismo musical de Bunny Wailer independia de qualquer decisão de gravadora ou imposição musical. Ela lhe era natural. O reconhecimento, ainda que diminuto se comparado à projeção de Bob e Peter, viria a partir de muita ralação.

Blackheart Man ainda hoje é tido como a obra-prima, o álbum divino que evidencia a aura espiritual de Bunny – com a bênção dos dois parceiros, que tocam e colaboram no disco. A partir dele, Bunny experimentou com grooves mais pesados (Struggle, de 1979), assimilando as técnicas do dub (In I Father’s House, de 1980) e dando nova leitura à obra dos Wailers, da qual já não fazia mais parte desde Burnin’ (nesse quesito, é honroso o tributo que fez a Bob Marley em Tribute to Bob Marley, de 1981, que veio na esteira do que atingiu musicalmente em Bunny Sings the Wailers, de 1980).

Ao longo da década de 1980, Bunny Wailer flertaria com o dancehall e com o formato tradicional do reggae. Mas, demorou certo tempo para que o músico atingisse seu auge. Então, veio Liberation, que marca novo passo em sua carreira.

Ciente de que precisava universalizar sua obra, o músico recarregou o poder do groove que havia perdido no meio do caminho de sua discografia.

“Rise and Shine” declara de primeira a cartilha do que se ouvirá no álbum: cita o ‘choro de um povo que foi roubado e estuprado de suas terras e de seus entes queridos’. Assim como Bob e Peter, Bunny Wailer sempre esteve ligado ao contexto político da Jamaica, mesmo que em menor expressão. Ele devolvia essa opressão política com sua rejuvenescida espiritualidade. Em Liberation, entretanto, estava indo direto ao ponto, assim como Peter Tosh fez em Equal Rights (1975) e Bob Marley em Survival (1979).

Logo na capa, uma escultura de barro com homens à luta sobreposta à Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Com soberbos arranjos musicais, por conta do excelente time reunido no estúdio (entre eles, Sly & Robbie, que já trabalhavam com o cantor desde Bunny Sings The Wailers, o trompete de Bob Ellis e teclados de Red Fox Stewart), a faixa-título reúne um híbrido que também dialoga com o highlife e afro-beat africanos. “Botha, the Mosquito”, além de dialogar com a cena musical do continente, é uma mensagem ao então primeiro-ministro da África do Sul Pieter Willem Botha: ‘é o mosquito que aniquila a África/Presidente Botha com sua picada matadora/Espalha a doença do apartheid’. E avisa: ‘Ei, respeite Tutu e Mandela!’.

O rocksteady bem arraigado à cultura jamaicana determina a dança de “Ready When You Ready”, tirando o peso da seriedade do disco. “Didn’t You Know” tem a leveza e a paz gerada pelo sol do fim de tarde; viria a ser grande influência pro reggae mais pop que seria explorado a partir de então.

“Bald Head Jesus” questiona a imagem usual que se faz do filho de Deus (ou de Jah): ‘Ainda não vi a imagem de um Jesus careca’. Os alvos são postos: ‘Essa é uma mensagem para todas as igrejas e denominações/O respeito é devido ao homem com dreadlock rasta’.

“Food” não trata do problema da falta de comida com a assertividade de uma “Fighting Against Conviction”, de Blackheart Man, mas soma-se efetivamente às composições combativas de Liberation. Este importante disco na carreira de Bunny Wailer renovou sua capacidade de aprimorar o reggae e mostrou o cantor ainda mais compromissado com as problemáticas sociais. A linguagem era igualmente afiada e universal; as músicas, eficazes e enérgicas. Motivo mais que plausível para pedir, encarecidamente: Snoop, retire o que disse!

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Fique atento: finalmente Bunny Wailer vem pela primeira vez ao Brasil. O próximo show é dia 19 de novembro (quarta-feira), em São Paulo. Mais detalhes, clique aqui.