01 Welcome to Death Row 02 Ritual 03 Execute 04 Ressurector 05 The Memory 06 Suspended Animation 07 A Kind of Freedom 08 Thol Onsia 09 A Single Broken Wing

10 S-N-O-W-P-R-I-N-T-S

Gravadora: Pathe/EMI
Data de Lançamento: 1980

Como você musicaria a morte? Provavelmente abordaria o sofrimento, o medo, a apreensão, uma espécie de terror…

Essa deve ter sido a ideia inicial de Bernard Szajner quando recebeu, pela primeira vez, o convite de criar um jingle de 30 segundos sobre a pena de morte para a instituição Amnesty International, na França, seu país de origem.

A partir disso, veio a ideia de Some Deaths Take Forever que, o nome pode entregar, também aborda o tempo e como lidamos com ele perante a morte inevitável.

Em dois atos, o segundo disco do artista e experimentador divaga de forma instrumental sobre o curto período de vida de dois presos sentenciados no corredor da morte.

O primeiro deles vai por uma longa travessia rumo ao desespero, como dá a entender a inicial “Welcome to Death Row”. As guitarras fritadas de Pierre Chereze e os efeitos esparsos no saxofone de Alain Agius formam uma agrura que liga o avant-garde à eletrônica (com emendas que depois seriam aproveitadas em gêneros como acid house e drum’n bass).

Enquanto “Ritual” se firma como um hino de desespero do condenado, que lacrimeja sob uma produção massiva em contraponto a sons de fagote num andamento meio reggae, “Execute” confirma a tragédia inevitável. Os pianos lúgubres dão dramaticidade à causa e barulhos ao fundo dão a ideia de maquinações: como se os algozes estivessem testando a eletricidade da cadeira antes do ato homicida.

Então, a morte se consome e aos poucos a música, triste, assume ares etéreos, transformando o horror da partida na beleza fantasiosa de que esse personagem vai para um lugar melhor – bem tratado em “Ressurector”, onde as percussões eletrônicas de Szajner formam uma espiral post-mortem fabulosa junto ao órgão de Marc Geoffroy.

A transmissão de rádio no interlúdio de “The Memory” dá início à outra história: a de um condenado que tem suas vidas e seus sonhos dentro desse aparelho. Essa é a trajetória de um personagem exaltado (cujas pistas já foram dadas em “Ressurector”, que parece aliar a morte de um com a apreensão do outro).

“Suspended Animation” também inicia com ondas de rádio, mas já evidencia um mal estar. Como se fosse o barulho dentro de nosso esôfago, a faixa faz uso de efeitos fragmentados, com pequenas interferências de respirações tortas e ofegantes.

A esperança é retomada em “A Kind of Freedom”, uma delícia de melodia no piano em meio a guitarras funk sobrepostas a um ambient que lembra Brian Eno.

O disco ainda prossegue com mais três faixas: o minimal operístico de “Thol Onsia”; o avant-garde em uma forma desconstruída e aquebrantada em “A Single Broken Wing” (que faria qualquer integrante do These New Puritans babar); e, para encerrar, a cristalina “S-N-O-W-P-R-I-N-T-S”.

Mesmo que tenha defrontado com o horror, Szajner fez uma bonita dedicação no disco: “Dedico este álbum para a Anistia Internacional em todo o mundo. Que lute corajosamente para a libertação de prisioneiros de consciência, para a abolição da tortura e da pena de morte”.

Ainda que o disco não tenha conseguido vender tanto, Some Deaths Take Forever foi bastante elogiado pela crítica especializada.

Analisando as possibilidades da eletrônica naquela época, fica difícil não colocá-lo, esteticamente falando, como a vanguarda do que franceses do gênero fariam depois (sim, estou falando de David Ghetta e Daft Punk). Para tanto, vide as guitarras, as experimentações de batidas e as ousadas linhas estabelecidas sob diferentes formas em cada uma das canções.

Claro que Szajner foi bem mais matemático, ousado e bem-sucedido em suas experimentações musicais. Mas, como o circuito pop já cansou de nos dizer, não é bem isso que desperta interesse na maioria das pessoas…