
01 Toalha da Saudade 02 Rosa Tristeza 03 Hora da Razão 04 Babá de Luxo 05 Marta 06 Ondas do Mar 07 A Sorte do Benedito 08 Fora do Meu Samba 09 Espera 10 Ironia 11 Marca no Pé
12 Indecisão
Gravadora: Continental
Data de Lançamento: 1976
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Impossível não notar a semelhança: ambos foram reconhecidos tardiamente, ambos registraram canções impactantes em obras de Carnaval, ambos faziam o dito ‘samba triste’ e, pra selar de vez, ambos faleceram com a mesma idade: 72 anos.
Eles tinham lá suas semelhanças, só não nasceram no mesmo local: Angenor de Oliveira era do Rio de Janeiro, enquanto Oscar da Penha, Salvador.
Caso ainda esteja confuso, esclareço: Angenor é o primeiro nome de Cartola; Oscar, de Batatinha.
Batatinha foi um apelido dado ao músico que, influenciado pelo compositor carioca Vassourinha, foi apresentar seu primeiro samba à Rádio Sociedade da Bahia nos anos 1940, dirigida por Antônio Maria.
O samba apresentado foi “Inventor do Trabalho” canção que, qualquer um que tivesse um senso artístico, saberia avaliar como obra de quem sabe o que faz: ‘Necessidade: senhora absoluta/Trabalhar, trabalhar por uma nota curta’.
Antônio percebeu na hora que o rapaz dono da esperta canção laborial tinha futuro e fez questão de sugerir outro nome artístico a Oscar: Batatinha, gíria pra quem é ‘gente boa’.
Para ganhar a vida, Batatinha trabalhou primeiramente como aprendiz de marceneiro, depois conseguiu um emprego de office-boy no Diário de Notícias. Lá, aprendeu a função gráfica e fez carreira, depois, na Imprensa Oficial como gráfico – onde, inclusive, se aposentou.
Aí, já fica fácil de notar: Batatinha foi um músico que não conseguiu viver financeiramente com suas composições (assim como Cartola, que foi redescoberto como lavador de carros e só foi gravar um disco depois dos 60).
Batatinha até que tentou arriscar a carreira como intérprete, afirmando aos managers que não escrevia, só cantava. Ainda assim, a trajetória foi difícil.
Quem direcionou os olhos à canção de Batatinha, tempos depois dele gravar hinos carnavalescos, participar de concursos radiofônicos e, inclusive, ter a canção “Diplomacia” em trilha sonora do conterrâneo Gláuber Rocha, foi a então promissora Maria Bethânia que, a uma multidão contemplativa no Teatro Opinião (1964), interpretou canções como a própria “Diplomacia”, “Imitação da Vida”, “Hora da Razão”.
Depois de trabalhar com música em teatro, viu a sua obra “Espera” tornar-se um hit na voz da sambista Alcione. E aí, foram dados os primeiros passos para que ele gravasse em 1973 um disco em conjunto com Riachão: Samba da Bahia, com direção de Paulo Lima e Edil Pacheco.
Este disco foi responsável por reunir algumas das canções que podem ser consideradas patrimônio do samba baiano: “Direito de Sambar”, “Ministro do Samba”, “Cada Macaco no Seu Galho” – esta última escrita por Riachão.
Introduzida a importância de Batatinha, eis que finalmente chegamos ao tema central deste post: o disco Toalha da Saudade, gravado em 1976. Foi o único registro oficial de Batatinha como cantor solo.
Batatinha sempre quis evitar a alcunha de ‘sambista de roda’, mas, mesmo quando ia por esses lados, o fazia muito bem: é o caso de “Ondas do Mar” que, apesar dos agitos, trazia elementos mais complexos que vêm da origem africana do gênero: trombone, sax, percussão… Mais Pixinguinha do que Noel Rosa.
Com pouco mais de 35 minutos de duração, Toalha da Saudade é o disco-chave para conhecer a obra de Batatinha. Ele mesmo é o melhor intérprete de suas canções
Toalha da Saudade também reúne algumas de suas composições mais marcantes: “Marta”, uma composição que fala de amor com toda a maturidade digna de Cartola; “Rosa Tristeza” que, com participação de Edil Pacheco, é crônica sobre o que pode fazer a atração por uma bela mulher; “Ironia”, uma das muitas composições em que Batatinha reflete sobre a dificuldade da vida artística: ‘da minha vida, quem sabe sou eu (…)/Daí então vou sorrir da ironia/Por saber que todo dia/Não é igual a outro dia’.
Em “Espera”, Batatinha fala sobre a esperança de ter de volta alguém que amou. Mas, conhecendo a sua história, bem que poderia ser também ‘aquilo’: a música. “É doloroso esperar/(…)E com a alma em desespero/Se procura no espelho/Uma solução qualquer”.
O melhor do som do Batatinha é saber que, mesmo quando o músico se lamenta, não o faz em tom de que quer a sua piedade. É mais uma resignação da vida. A música é acalanto da tristeza – mesmo quando ele fala da tristeza na música. Sem deixar de mencionar, obviamente, os momentos de descontração em canções alegres e pegajosas como “Babá de Luxo”, “Fora do Meu Samba” e “Marca no Pé” – canção para ser entoada numa roda de capoeira, ainda mais quando se descobre que tem berimbau no meio.
Com pouco mais de 35 minutos de duração, Toalha da Saudade é o disco-chave para conhecer a obra de Batatinha – e acho muito difícil você não querer conhecer ainda mais deste artista depois de ouvir o disco.
Ele mesmo é o melhor intérprete de suas canções. Pode ter sido prejudicado pela falta de elegância exterior. Mas quero ver quem é capaz de reunir argumentos para refutar a elegância estética de suas composições.
‘Sorrio da tristeza e não aceito chorar’.
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Na imagem do post, Batatinha está ao lado de outra lenda musical: Dorival Caymmi
Em tempo: em 2009, para comemorar os 85 anos desde o nascimento do sambista, o Festival In-Edit exibiu o documentário Batatinha: Poeta do Samba, dirigido por Marcelo Rabelo.
