01 4 02 Cornish Acid 03 Peek 824545201 04 Fingerbib 05 Corn Mouth 06 To Cure a Weakling Child 07 Goon Gumpos 08 Yellow Cal X 09 Girl/Boy Song 10 Log N Rock Witch 11 Milkman 12 Inkey $ 13 Girl/Boy (18 Pound Snore Rush Mix) 14 Beetles

15 Girl/Boy (Redruth Mix)

Gravadora: Warp
Data de Lançamento: 4 de novembro de 1996

Difícil ver alguém na música eletrônica angariar tantos elogios como Richard David James. A mente brilhante por trás do Aphex Twin é equiparada a Mozart ou como herdeira dos experimentos de John Cage, indo de paralelo diretamente com gênios como Terry Riley e Stockhausen – que, inclusive, criticou o excesso de percussões pós-africanas do músico para extrair algo dissonante (vale ler o que desenrolou aqui).

O que realmente impacta na música de Aphex Twin são as quebras e imprevisibilidades em temas que variam do minimalismo de Philip Glass ao mais desordenado jungle jamaicano em questão de poucos minutos.

Richard D. James Album, o quarto disco do produtor, exibe a busca mais extrema dessas modulações.

O disco flerta diretamente com drum’n bass, mas está longe de ser catalogado como um disco apenas deste gênero.

Nesse drum’n bass pode entrar o fusion tresloucado On the Corner (1972) numa “Carn Marth”, o jeito do Virgo levar às pistas numa “Cornish Acid” (que parece arremessar esse Virgo na mesma nave de um Mothership Connection (1975)) e até mesmo encontrar um mantra circense-arabesco em “Logan Rock Witch”, que faz estranho uso de percussão africana.

Nenhuma música deste disco é decifrável com apenas um adjetivo. Richard D. James Album superlativiza todos eles, quebrando o que se teoriza como separação de EDM e IDM. (Digamos que não dá pra dançar com as batidas de uma “4” ou “Fingerbib”, que subvertem techno e trance sob diferentes formas, mas não consigo catalogar a intensidade de uma “Milk Man” ou “Girl/Boy Song” como ‘eletrônico inteligente’ – e isso não é crítica alguma, é apenas um outro modo de perceber as composições.)

O que temos aí, então? Nada menos que a vontade de transfigurar gêneros como acid-jazz e avant-garde na mesma proporção em que se espicaçam os ritmos da eletrônica. Trilhas de sci-fi também se fragmentam nesse conceito, fazendo valer o que a revista Entertainment Weekly descreveu muito bem com poucas palavras: “Se máquinas pudessem fazer piadas ou chorar, é assim que elas deveriam soar”.

Pensar no processo de composição deste álbum é desgastante e desafiador. Aqui, o fluxo de raciocínio é constantemente interrompido e prever que batida virá no próximo segundo pode ser um eterno exercício de frustração.

“To Cure a Weakling Child” une pelo menos três tipos sonoros dissonantes: as quebras do jungle; a mudança de tom vocal (que deve ter deixado Thom Yorke pirado); e os arranjos do piano clássico, que imitam violino e dialogam com o órgão da música de Brahms.

“Girl/Boy Song” consegue colocar harpas e violinos no mesmo tempo das batidas do drum’n bass, conectando música clássica de câmara com música eletrônica das pistas. Esta canção ganhou mais dois remixes, que foram incluídos no disco: a versão de 18 Pounds Snare Rush, que poderia ser melhor masterizada; e de Redruth, que a deixou mais apropriada ao set de qualquer DJ que queira impressionar com playlists menos óbvias.

“Peek 824545201” é uma das mais poderosas de todo o disco, bagunçando trilhas de jogos de puzzle, experiências com ambient de seu (também esplêndido) debut Selected Ambient Works 85-92 (1992) e a atmosfera espacial dos primeiros anos da música techno.

The Richard D. James Album torna as referências trabalhadas (acid jazz, EDM, techno, drum’n bass, jungle) um tanto mais complexas, como se cada gênero transitasse em nossas aventuras pelo desconhecido – ou nos espaços mais ocultos de nossas mentes.

É orquestração e anarquia trabalhadas como a sonoridade extraída de nossos neurônios.

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A seguir ouça The Richard D. James Album, de Aphex Twin, na íntegra: