
01 Abrigo de Vagabundos 02 Bom Dia Tristeza 03 As Mariposas 04 Saudosa Maloca 05 Iracema 06 Já Fui uma Brasa 07 Trem das Onze 08 Prova de Carinho 09 Acende o Candieiro 10 Apaga o Fogo Mané 11 Véspera de Natal
12 Deus te Abençoe
Gravadora: EMI
Data de Lançamento: 1974
Prédios e mais prédios. São Paulo é o alvo maior da indústria imobiliária, e isso já acontece desde que a capital tornou-se o principal polo comercial lá nos anos 1940.
Como se nossa visão já não estivesse limitada o suficiente por conta de edifícios cada vez mais hedonistas, a tendência é que a capital paulista se transforme numa espécie de maquete onde não se enxerga mais a superfície.
O que tiver próximo do centro periga ser demolido para dar ‘espaço’ a mais um complexo comercial. A situação está tão agravante que há de se acreditar que o ramo imobiliário esteja penetrando nas favelas para causar ‘incêndios acidentais’ – se é que se pode chamar de ‘acidental’ incêndios que ocorrem em áreas que estão na mira de “projetos de intervenção urbana e áreas de interesse do mercado mobiliário”, como aponta, numa reportagem da TVT, Júlia Moretti, gestora de projetos sociais. “Muitas vezes a grande mídia ouve a versão oficial e acaba não dando atenção para a versão dos moradores”, complementa.
Ao lembrar de ‘versão dos moradores’, volto lá pra 1974 – ano em que Adoniran Barbosa, talvez o nome maior do samba paulista, lançou seu primeiro disco.
‘Esse edifício alto era uma casa velha, um palacete abandonado, nossa maloca/Mas um dia, não quero me lembrar/Veio uns homens com as ferramenta/O dono mandou derrubar/Peguemo tudo as nossas coisas/E fomos pro meio da rua/Apreciar a demolição/Tristeza, que eu sentia/Cada tauba que caía/Doía no coração’.
Os versos acima são de “Saudosa Maloca”, escrita nos anos 1950. (Não leve em consideração os erros ortográficos que, no caso de Adoniran, formam o contexto perfeito de ‘voz do povão’.)
No disco, o samba arrojado teve o acompanhamento de Xixa (cavaquinho), Marçal (percussão), Miranda (violão) e Theo de Barros (violão), estética mais que apropriada para uma crônica triste que, cantada por um boêmio que já passou por dificuldades na vida, ganha ares de bom humor, como se fosse a coisa mais normal na vida.
Apesar de não ter uma solução imediata para arrumar outro lugar pra morar, Adoniran, sabedor do factual do ‘ter que lutar para obter’ (máxima das classes menos abastadas), diz ainda com o bom humor que surge como opção única da resignação: ‘Os homem tá com a razão/Nós arranja outro lugar’.
“Saudosa Maloca” ganhou uma continuação. Ela veio com “Abrigo de Vagabundo”, faixa que abre este homônimo de Adoniran Barbosa. Depois de muito tempo fazendo bicos para conseguir uns trocados, finalmente ele consegue dinheiro ‘trabalhando o ano inteiro numa cerâmica fabricando pote’.
Citando o ‘jeitinho brasileiro’ para se arranjar, ele arruma um contato quente: ‘João Saracura, que é fiscal da Prefeitura/Foi um grande amigo e arranjou tudo pra mim’. Ele arruma a sua maloca e lembra dos parceiros Joca e Mato Grosso, que foram despejados do prédio na crônica de “Saudosa Maloca”. Por não achá-los, acredita que ‘andaram jogados na avenida São João ou vendo sol quadrado na detenção’. E Adoniran, com coração de vagabundo, dedica o seu barraco: ‘Minha maloca/A mais linda deste mundo/Ofereço aos vagabundos/Que não têm onde dormir’.
Adoniran vivenciou o crescimento desordenado da cidade e percebeu como isso (des)afetou a população, cantando esse (des)afeto como nenhum outro compositor
Por ser justamente o primeiro álbum completo de Adoniran, vê-se mais um apanhado de tudo que o músico registrou nos anos anteriores do que uma ‘obra redonda’.
A Odeon deu oportunidade para que o sambista registrasse suas principais composições naquele momento, dando espaço para “Bom Dia Tristeza”, parceria com Vinicius de Moraes que recebeu um arranjo mais tácito devido aos violinos e os acordes tristes extraídos do violão; e a sua versão de “Deus Te Abençoe”, composta por Peteleco que virou um samba de roda que mais uma vez expõe uma realidade social: neste caso, a de um pedreiro que precisa cuidar da mãe: ‘Faço meu sacrifício/Mas minha mãe tem que ter tudo o que quiser’.
Por falar em realidade, nos anos 60/70 o país viveu uma transformação musical com a chegada do Tropicalismo e do iê-iê-iê, que motivou Adoniran a escrever “Já Fui Uma Brasa”: ‘Eu gosto dos meninos desse tal do iê-iê-iê/Porque com eles, canta a voz do povo/E eu, que já fui uma brasa/Se assoprar, eu posso acender de novo’.
O que dizer então de “Trem das Onze”, sucesso absoluto? Quem depende do transporte coletivo para fazer tudo na capital vai se identificar na hora com a crônica de um rapaz que ‘mora em Jaçanã’ e que não pode perder o trem ‘que sai agora às onze horas’, senão fica na rua, na vala, tal qual um vagabundo. ‘Sou filho único/Tenho minha casa pra orar’. (Para quem não sabe, passou da meia-noite torna-se impossível voltar para casa numa megalópole como São Paulo. Ou você se sujeita aos preços abusivos dos táxis bandeira dois, ou espera até as 4 da manhã para pegar o primeiro transporte. E, para esse problema, nenhuma medida foi apresentada por nenhum dos candidatos da Prefeitura, que querem manter a devida distância dos moradores da periferia com o centro da cidade.)
“Apaga o Fogo Mané” – que segundo o sambista Paulo Vanzolini “diz mais sobre São Paulo do que sete volumes de enciclopédia” – é, em poucas palavras, a crônica de um ‘corno’. O fogão aceso ilustra que a mulher é uma dona de casa. Ela diz que precisa sair pra comprar ‘um pavio pro lampião’, que mostra que ambos vivem em um pequeno cômodo, muito provavelmente na periferia. E ela, que passa uma perna no marido, ainda tira uma onda: ‘Pode apagar o fogo, Mané/Que eu não volto mais’.
Lembrado por retratar São Paulo, Adoniran vivenciou o crescimento desordenado da cidade e percebeu como isso (des)afetou a população, cantando esse (des)afeto como nenhum outro compositor.
Como é de se perceber, a cidade continua com os mesmos problemas (‘o de cima sobe e o de baixo desce’, lembra de Chico Science?). Enquanto eles persistirem, Adoniran continuará atual.
Pelo jeito que as coisas andam, a atualidade de seu samba vai permanecer por muito, muito tempo.
