01 Midnight Marauders Tour Guide 02 Steve Biko (Stir It Up) 03 Award Tour (ft. Trugoy) 04 Million Stories 05 Sucka Nigga 06 Midnight (ft. Raphael Saadiq) 07 We Can Get Down 08 Electric Relaxation 09 Clap Your Hands 10 Oh My God (ft. Busta Rhymes) 11 Keep It Rollin’ (ft. Large Professor) 12 The Chase, Part II (ft. Consequence) 13 Lyrics to Go

14 God Lives Through

Gravadora: Jive Records
Data de Lançamento: 9 de novembro de 1993

Não deveria ser assim, mas boa parte das discussões sobre o grupo A Tribe Called Quest resumem-se a dois discos: de um lado, The Low End Theory (1991), cultuado por suas proximidades com o jazz e forte consciência social; de outro, Midnight Marauders (1993), o disco mais vendido do grupo, que o inseriu em um contexto hip hop abraçando mais o funk e possibilitando uma abertura que o levou às paradas da Billboard.

Essa transição do segundo para o terceiro disco raramente é mencionada, mas existe. Gêneros sampleados à parte, as rimas de Q-Tip, Phife Dawg e Jarobi White estão inseridas mais uma vez na suavidade sonora do DJ Ali Shaheed Muhammad. Os novos experimentos resultantes em “Sucka Nigga” e “Keep It Rollin’” colocaram o smooth-jazz a favor de composições mais encorpadas, onde o contraponto joga a favor do flow e do andamento musical. Assim, o elemento jazzy deixa seus contornos essencialmente cults (ou ‘alternativos’, se preferir) para adentrar a uma esfera mainstream.

Ou seja, se antes o A Tribe Called Quest estava catalogado como um grupo cabeça, à frente dos demais contemporâneos, Midnight Marauders paga o débito ao ser um dos grandes destaques da safra de 1993, que inclui o debut de Wu-Tang Clan (Enter the 36 Chambers) e o melhor disco de Snoop Doggy Dogg (Doggystyle).

“We Can Get Down” e “God Lives Through”, por exemplo, têm mais possibilidades de conquistar um neófito que qualquer esforço bem-sucedido de The Low End Theory. Isso vale pela batida, que dialoga melhor com a produção daquele momento: entre o sinistro do piano e o exagero dos metais, para sugerir emoções extremadas.

Nada de palidez: os scratches de “Clap Your Hands” e o clima de festa de “Midnight” mostram o grupo pronto para te arrastar em suas incursões pela cidade, pelas baladas, pela animação.

Isso não quer dizer que o grupo tenha abandonado sua postura social. Em “Sucka Nigga”, Q-Tip entra sem medo na discussão sobre a postura dos negros em um mundo dominado por brancos, afastando-se de qualquer chavão: ‘Posando como se fossem fodas quando conhecemos seu cartão maldito/(…)Isso significa que nunca iremos crescer, você conhece a palavra: marionete?’. É a posta provocação num momento em que o rap se fortalecia artisticamente por representar o crescimento da autoestima dos negros. Seria considerado racista se fosse cantado por brancos, mas, como estamos falando de um grupo de negros do Queens, a provocação é a ponte para a mensagem, direta e reta: ‘Odeio MCs trouxas’ – uma menção ao alastramento de cantores que glorificam o fato de ser negro, mas pouco fazem para elevar as discussões sobre o que é ser negro na sociedade.

No sentido de postura social, a grande contribuição de Midnight Marauders é colocar o ‘intelecto negro, mas nada refinado’ mencionado por Q-Tip em “Oh My God”, para balançar, ir às pistas.

O grupo não precisa recorrer ao superficial para chamar a galera em “We Can Get Down” ou ‘pegar o ouvido das pessoas e ser sublime’ em “Award Tour”, que tornou-se um dos maiores hits do grupo (com participação de Trugoy, do De La Soul).

A mensagem é simples: como um dos grupos mais avantes do hip hop, A Tribe Called Quest também possui a capacidade de trazer os ouvintes pelo atrativo que eles mais procuram: canções de boa produção, pra tocar no baile, se divertir e cantar junto sem culpa.

Nas entrelinhas, permanece o grupo que explorou atmosferas interessantes no contexto do hip hop. No geral, Midnight Marauders capta a essência dos Quests pelo divertimento. Ser consciente, agitado e otimista é o maior barato.