
Também entro para o time daqueles que acham que “Fun House“, dos Stooges, é um dos maiores discos de rock de todos os tempos. Hoje, esta obra-prima completa 40 anos.
Apesar das muitas especulações, David Bowie não exerceu influência na produção deste álbum. O andrógino do rock só travou conhecimento com Iggy Pop depois de ter pirado bastante com o segundo álbum dos patetas.
Há um bom tempo atrás, escrevi um livro digital para o site Mojo Books inspirado no álbum Fun House. Já adianto que a obra é curta, tem 20 páginas. Deixo aqui o convite para que todos leiam.
Abaixo, reproduzo um texto sobre o clássico Fun House, dos Stooges, que publiquei há cerca de um ano atrás.
A influência dos espectros na trajetória da decadência
De tantos shows, vômitos, nervosismos, overdoses e bebedeiras, aos Stooges só restavam o declínio. Na busca de uma sonoridade mais livre, em uma casa abandonada saíam os primeiros acordes do segundo álbum, Fun House. “Paz e amor não fizeram muita parte dele. No fundo a gente não se importava muito em fazer alguém se sentir bem. Estávamos mais interessados no que estava acontecendo realmente, na merda tediosa que era e no jeito que de fato você era tratado”, disse o baterista Scott Asheton para os autores do livro Mate-me Por Favor. ““Dirt” é um exemplo perfeito de como era nossa atitude. Sabe como é: Foda-se essa merda, somos lixo, não importamos”, completou.
Além dessa emblemática faixa, “Down On The Street”, “Loose” e a pesada e densa “T.V. Eye” faziam parte do repertório. As influências distintas de cada integrante trariam à banda Steve McKay, um saxofonista experiente na arte do jazz para tocar “1970” (com uma sincronia infalível na bateria de Scott e a liberdade rítmica na guitarra de Ron), “Fun House” e “L.A. Blues”, com um instrumental absolutamente desafinado, pungente e insípido, soando como realmente os Stooges queriam ser.
Depois desse trabalho, alguns ‘espectros’ sobreviriam na carreira de alguns integrantes. Alexander, que já fora expulso por Iggy da banda após a finalização de Fun House, tempos depois não aguentaria um ataque de overdose. A notícia veio seca da boca de Iggy Pop: “O Xander morreu de overdose, mas eu não estou nem aí, nem gostava dele mesmo”, causando espanto para os irmãos Asheton.
Os outros dois ‘espectros’ encarnaram nas peles de David Bowie e James Williamson. Bowie era um grande fã de Iggy e queria, a qualquer custo, impulsionar a carreira solo dele. Depois de serem apresentados, não se desgrudaram até a gravação do próximo trabalho. Como uma coisa puxa a outra, Williamson, que acabou sendo redescoberto (pois era colega de escola de Ron) após a contratação de um novo baixista para a banda, também começou a acompanhar as viagens desvairadas de Iggy na heroína. Repentinamente, Bowie chamou os dois ‘novos amigos’ para gravar na Inglaterra – mas faltava um baterista e um baixista à altura. Caídos no esquecimento, os irmãos Asheton foram recrutados pelo Iguana a viajarem e gravar Raw Power . “Estamos sem um baterista e um baixista e precisamos gravar, vocês não querem vir com a gente?”, foi a abordagem feita à Ron. Cabisbaixos pela rejeição, Ron e Scott não tiveram outra opção: a falta de grana falou mais alto e os irmãos acabaram embarcando.
Era visível o tratamento diferenciado que Williamson e Iggy tinham de David Bowie e, (que novidade!) em condições não muito amigáveis, saiu o terceiro trabalho. O próprio nome da nova fase da banda de Iggy dava um tom de exclusão por parte dos outros integrantes – Iggy Pop & The Stooges.
