Sabe quando você tem a impressão de que vai ver um show bom? Pois é. No entanto, Rodrigo Campos calou a minha boca ontem no show de lançamento do disco Bahia Fantástica, no Sesc Vila Mariana.
Horas antes de sentar naquela poltrona do teatro, tentei desanuviar, fiquei escutando sons totalmente diferentes do que iria me deparar naquela noite. Fiquei com o meu Cidadão Instigado, Dr. John, Radiohead, Nação Zumbi… Na moralzinha, com o meu mp3 do celular.
Cada música executada ali teve seu momento de grandiosidade. Eu vi gente chorando ali; meu camarada ficou sem entender, pasmo, estoico
Pego o metrô, trombo um camarada, chego atrasado, sento a bunda na cadeira. Algumas canções já tinham rolado, mas a brisa do mar surgiu quando Rodrigo Campos começou a tocar “Beco”. Que mar eu não sei, pois a música fala de um rapaz que tem medo de dar em cima de uma garota que anda com os maloqueiros do beco. Talvez seja a flauta de Thiago França, que parecia formar aqueles contornos salinos do mar quando o contemplamos à distância. Subitamente, Thiago e seu instrumento invadem a praia, e as programações psicodélicas de Mauricio Fleury dão impulsão para que a onda venha mais forte.
Em seguida, entra Luísa Maita. Foi estranho: não imaginava que a cantora de Lero-Lero tinha uma voz tão potente ao cantar “Morte na Bahia”, que floresceu de uma inspiração fúnebre. Seria a morte como celebração, a morte como beleza. Tenho certeza que a ideia era essa e a execução ficou impecável, ainda mais com a percussão fervorosa de Maurício Badé.
Quem também entrou arrebentando tudo na voz foi Criolo. No começo, ele cantou “Ribeirão”, mas surgiu depois entoando uma versão marcante de “Califórnia Azul”, uma das melhores músicas de São Mateus Não é Um Lugar Assim Tão Longe.
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Os outros cantores que me desculpem, mas o grande momento da noite foi Juçara Marçal cantando “Jardim Japão”. A percussão fritava, a ponto de arregalar os ‘zói’. As cordas da guitarra de Rodrigo Campos formam uma trilha de suspense linear, enquanto Thiago vai acompanhando os vocais com sua flauta. Então… Então, meu velho: quando entra a voz de Juçara… Que limpidez, que força, que afro, que lindo! Como se a sonoridade já não fosse tensa o suficiente, Guilherme Held, tal qual um Robert Fripp na Patagônia, repousa a guitarra no colo e vai formando os efeitos que simulam destruição. Sangue no boteco do Avelar, correria on the Road na Zona Norte, Apocalypse Now na favela.
Eu vi gente chorando ali; meu camarada ficou sem entender, pasmo, estoico. A estupefação era tão grande, que não saía nada. Só observei, não consegui tecer comentário. Segundos depois, os aplausos foram tão intermitentes que, antes de sair, ela cantou mais uma: “Salve Fabrício” (também do primeiro disco), em voz e violão.
Cada música executada ali teve seu momento de grandiosidade. “Aninha” foi impecável ao recriar a passagem de uma garota que parecia estar internada na UTI (só prestar atenção nos teclados de Fleury), para depois entrar em uma jam alucinada, intensa, macabra, foda! “General Geral”, que também apareceu no bis, foi arrancando cantos em todo o perímetro do teatro. “Elias” ganhou uma versão tão visceral, que por alguns minutos parecia estar contemplando o Ascension, do Coltrane, nos palcos.
No final, todos os participantes subiram ao palco para cantar o encerramento “Sou de Salvador”. Teve bis de “Princesa do Mar” e a já citada “General Geral”, com Romulo Fróes também colaborando nos vocais.
Se o show foi bom? Ainda não consegui abrir a boca pra falar…
Créditos da imagem: Ana Clara Martins Tenório
